Montadoras entram no modo ‘stand by’

Modo ‘stand by’ . A indústria automobilística funciona à base de investimentos pesados, programados antecipadamente e voltados para o longo prazo.

 

Desta vez, porém, grandes empresas do setor assumiram uma posição de “stand by”. De forma explícita, executivos já haviam admitido a espera por definições mais claras do cenário político-econômico. Nos bastidores, agora, alguns revelam o temor de que a piora do quadro, pela crise política, venha a afugentar as matrizes, que decidem pelos investimentos em cada país.

Algumas grandes empresas estariam na iminência de anunciar novos planos. Outras passaram da data. A pandemia já havia levado a Volkswagen a esticar em seis meses o prazo do seu último programa de investimentos, de R$ 7 bilhões, que inicialmente terminaria em dezembro de 2020.

O segundo prazo já expirou.

A direção brasileira da Nissan negociava um novo plano com a matriz quando a pandemia cancelou as negociações. Não se falou mais no assunto.

Na Mercedes-Benz, o último investimento, de R$ 2,4 bilhões, abrange 2018 a 2022. Está, portanto, em vias de ser concluído. Nenhum outro foi programado e ontem foi anunciada a saída do atual presidente, Karl Deppen. Não foi definido, ainda, seu substituto.

A General Motors, que em janeiro de 2019 chegou a ameaçar deixar o país se não conseguisse reverter as perdas, fez, na ocasião um anúncio de R$ 10 bilhões até 2024. Está, portanto, mais distante do que outras do fim do ciclo.

Diante das incertezas em torno do cenário brasileiro, a Renault encontrou uma solução.

Ao invés de definir um plano de investimentos de quatro ou cinco anos, como se costuma fazer no setor, optou por alternativa intermediária. Elaborou um programa para dois anos, que vai deste ano até a metade de 2022. Com os recursos (R$ 1,1 bilhão) renovará cinco modelos. Mas a ideia de lançar um carro totalmente novo foi adiada, segundo revelou há alguns meses o presidente da operação no Brasil, Ricardo Gondo. “O contexto de cada país é levado em conta quando se discutem investimentos”, destacou Gondo, na ocasião.

A Toyota encerrou o último ciclo, de R$ 1 bilhão, para produzir um novo carro em Sorocaba (SP) e não definiu nenhum outro. “Previsbilidade e competitividade serão analisados para decidir nossos investimentos”, disse, durante uma recente Live do Valor, o presidente da companhia no Brasil, Rafael Chang.

Nos bastidores, executivos revelam falta de confiança no futuro do país e receio em relação a uma economia marcada pela pressão inflacionária, aumento da taxa de juros, alto desemprego e o desafio fiscal.

Um executivo da indústria que prefere o anonimato diz que “se a campanha eleitoral não tivesse sido antecipada haveria algum espaço para as reformas que o setor esperava”. “Teríamos alguma coisa já adiantada”, destaca.

Houve alguns anúncios de investimentos no setor ao longo da pandemia.

Boa parte, porém, concentra-se na indústria de caminhões, que tem experimentado crescimento por conta da demanda do agronegócio. Em dezembro de 2020, a Volkswagen Caminhões e Ônibus anunciou R$ 2 bilhões para o período até 2025. A Scania, que tem forte compromisso com exportação, além de estar em processo de desenvolvimento de veículos movidos a energias renováveis, planeja aplicar R$ 1,4 bilhão entre 2021 e 2024. A Volvo reservou R$ 1 bilhão para 2020 a 2024.

Na indústria de autopeças, o investimento de peso mais recente, foi o da Sumitomo. Em julho, a fabricante da marca Dunlop anunciou R$ 1,06 bilhão para ampliar a fábrica, no Paraná. Apesar de expressivo, o volume de recursos reservado pelo grupo ao Brasil não deixa de ser um reflexo da crise. A maior parte da produção no país atende o mercado de reposição. Em tempos de crise, trocar os pneus acaba sendo a alternativa de quem não pode comprar um carro novo.

Há, também, empresas que investem por estar em plena fase de expansão e conquista de mercado.

É o caso do grupo CAOA. No fim do ano passado anunciou R$ 1,5 bilhão em ampliação industrial até 2025. Outras, como a chinesa Great Wall, prometem investir para entrar no mercado.

Mas a Honda, por outro lado, não trouxe nenhum novo grande plano de investimento em automóveis para o país. Desde a construção de uma fábrica em Itirapina (SP), que ficou pronta em 2013. Mas teve a inauguração adiada em consequência da crise que já afetava essa indústria à época.

Como são as matrizes que liberam qualquer investimento em cada subsidiária, os executivos locais têm sentido dificuldades para falar sobre o assunto sem expor o contexto da volatilidade do Brasil. “O nível de incerteza hoje se concentra na questão política”, destaca uma fonte.

Para esse executivo, as empresas têm percebido que a reorganização da economia exige “um governo forte”.

“Estamos prestes a entrar em um ano eleitoral. E a situação do país não oferece espaço para as benesses adicionais que os governos costumam fazer em épocas de campanha”, diz.

Esperar que as matrizes autorizem investimentos num país instável torna-se uma tarefa ainda mais árdua numa época de grandes transformações nesse setor. A maior parte dos recursos tem sido gasta no desenvolvimento das novas gerações de veículos, elétricos e autônomos. E o Brasil está fora desse mapa.

 

Fonte: Valor Econômico

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