Taxas elevadas trazem pressão extra sobre a bolsa

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A perspectiva de uma taxa de juros elevada por mais tempo no Brasil traz pressão extra ao mercado de ações, que já precisa lidar com preocupações em relação ao desempenho da economia, ajuste fiscal, crise na Grécia e política monetária nos Estados Unidos. Nas últimas semanas, cresceram entre operadores e analistas comentários sobre as pressões que o Ibovespa vem sentindo quando o assunto é a concorrência com a renda fixa.
O mercado interpretou a última ata do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) como mais dura, indicando a continuidade do aperto monetário. A resistência da inflação, que alcançou 0,99% no IPCA-15 de junho, leva o mercado a apostar em uma Selic acima de 14% e, além disso, na manutenção dos juros em patamar elevado por um período prolongado.
Daniel Utsch, estrategista da Corretora Fator e chefe da área de análise, diz que o impacto dessa perspectiva sobre as ações é grande e afeta todos os tipos de investidores, desde institucionais até pessoas físicas.
“Se o cenário para a bolsa também passa a ser difícil e incerto, os agentes têm menos vontade ainda de comprar”, diz, referindo-se às projeções ruins para a economia brasileira. Segundo ele, a preocupação com os juros contribuiu para que o Ibovespa reduzisse os fortes ganhos que registrou em abril, de 10%. Em maio, o índice caiu 6,17%, e em junho há pequeno ganho de 1,87%. Para ele, o ano será difícil para a renda variável.
A alta dos juros tem impacto negativo nas projeções de lucros das empresas feitas por analistas. Com isso, o preço-alvo das ações fica menor, lembra o presidente da Magliano Corretora, Raymundo Magliano Neto. “Eu só indicaria ações com potencial de alta entre 25% e 30%. Só vale tomar o risco da renda variável se for para ganhar o dobro da renda fixa”, afirma. Ele acrescenta que os juros mais altos também afetam os balanços das próprias empresas, reduzindo lucros e, em consequência, os potenciais de alta em bolsa.
O cenário de juros altos por mais tempo reforça a troca de renda variável pela fixa no Brasil. Christiano Ehlers, superintendente-executivo de investimentos do Santander, diz que os produtos pós-fixados estão entre os mais procurados no momento, sobretudo as letras de crédito imobiliário (LCI). “De um modo geral, o investidor fica mais conservador nesse cenário”, diz. Para ele, em algum momento, quando o mercado tiver maior clareza sobre quando o ciclo de alta de juros vai parar, muitos buscarão operações prefixadas. “Mas é difícil acertar o momento de inverter as escolhas. Já havia gente fazendo isso desde quando os juros bateram nos 12%”, afirma.
Os segmentos ligados a construção civil, shopping center, empreendimentos comerciais, consumo e locação de veículos estão entre os mais afetados em bolsa por esse quadro, dizem os especialistas.
“A construção civil sofre duas vezes. Primeiro porque o parcelamento do imóvel fica mais caro para a pessoa física e depois porque os próprios financiamentos das empresas para crescer ficam mais caros”, diz Magliano.Locadoras de veículos sofrem com aumento nos custos de locação e venda de veículos. O setor de consumo sente o encarecimento das parcelas de pagamento dos clientes, que podem levar a uma maior inadimplência. Para os especialistas, o setor que se beneficia mais com o quadro atual é o financeiro.
As pessoas físicas seguem com participação restrita no volume total negociado na Bovespa. Em junho, respondem por 13,8% do total, ante 15,2% em maio. Os estrangeiros, que lideram, transacionam 52,4% do volume.
Fonte: Valor Econômico – Impresso

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