A Unidas volta ao jogo

Prejuízo de R$ 330 milhões, acumulado ao longo de cinco anos seguidos. Frota de veículos reduzida de 37 mil para 28 mil carros. Dívida saltando para quatros vezes a geração de caixa. Os números mostram o tamanho do inferno astral enfrentado pela Unidas, companhia paulistana de locação de carros. Uma crise iniciada em 2008 deixou a empresa na lona e gerou até a troca dos acionistas controladores. No entanto, os mesmo indicadores mostram que a má fase terminou. No ano passado, registrou lucro próximo dos R$ 50 milhões, viu a receita chegar ao patamar inédito de R$ 1 bilhão e a dívida reduzida. Após seu processo de reestruturação, a Unidas está de volta à briga. Ocupando uma posição estratégica em um mercado de R$ 5 bilhões, também voltou ao centro de rumores sobre uma possível aquisição pelas concorrentes.
Criada em 1985 pela união de cinco pequenas companhias e comprada em 2001 pelo grupo português SAG, a Unidas é uma daquelas empresas que cresceu muito rápido em pouco tempo. Entre 2002 e 2008, teve expansão média de 30% ao ano. O problema é que a infraestrutura do negócio – gestão, processos, mão de obra – não acompanhou esse avanço. Mesmo com a empresa fragilizada, os controladores mantinham a confiança que um processo de abertura de capital (IPO), esperado para breve, traria os recursos necessários para sanar os problemas. A quebra do banco Lehman Brothers e o início da crise financeira internacional mudaram o humor do mercado e jogaram por terra os planos do IPO. A empresa precisou lançar debêntures – e iniciou um processo que multiplicou sua dívida.
Cenário ruim? Pois iria piorar. Uma das principais fontes de renda das empresas de locação é a venda dos veículos que são usados por alguns anos em sua frota – o dinheiro dessa operação financia a compra de carros novos. Bem em meia à crise da Unidas, o governo iniciou um processo agressivo de redução de impostos para a compra de carros novos, derrubando as vendas de usados e jogando junto para baixo o faturamento da companhia. O resultado foi o rombo no balanço. “Uma tempestade perfeita”, resume Pedro Almeida, executivo português que chegou ao Brasil em 2010 para comandar o processo de turnaround da Unidas.
Mudança de perfil
Essa reestruturação teve várias frentes. Na área financeira, emitiu debêntures com prazos mais alongados para mudar o perfil da dívida. O caixa foi reforçado com a venda de parte da frota e com um aporte de R$ 300 milhões, obtido com a chegada de três novos sócios, as gestoras de fundos de investimento Vinci, Gávea e Kinea, que ficaram inicialmente com 47% da empresa. Curiosamente, alguns anos depois, em 2013, os fundos assumiram a Unidas por exatos R$ 1.474,71. Havia uma cláusula no contrato que, caso a empresa não alcançasse determinado desempenho, as gestoras teriam direito a aumentar sua participação – exatamente o que aconteceu. Juntos, eles possuem hoje dois terços da companhia.
O know-how dos fundos também foi usado para estruturar toda gestão interna. Na parte operacional, foram criadas diretorias separadas para os segmentos de locação de carros e de terceirização de frotas corporativas, ao invés de uma única estrutura para ambos. Gestão, sistemas e controle, processos internos – tudo isso também foi modificado. Os novos controladores trocaram todos os cinco diretores e a maior parte dos gerentes da empresa. “Precisávamos de uma nova cultura, com foco na meritocracia, nos clientes e nos resultados”, diz Almeida.
Na parte estratégica, a Unidas comprou a Best Fleet, companhia que terceirizava frotas para outras empresas. Com a aquisição, entrou em um segmento onde não atuava, o de carros premium, com margens mais altas. “A terceirização é praticamente uma commodity. Os nichos são a melhor forma de fugir da guerra de preços e agregar valor e margem ao serviço”, diz Almeida. A Unidas fechou também uma parceria com a americana Enterprise, maior empresa de locação de carros do mundo. Pelo contrato, clientes da Enterprise que vierem ao Brasil são atendidos pela Unidas, e vice-versa. Além de clientes, o acordo está trazendo expertise – a Unidas está usando o que aprendeu com os americanos para mudar o sistema pelo quais o cliente avalia seus serviços, por exemplo.
As medidas parecem estar dando resultado. Além do lucro registrado nos dois últimos anos, a empresa viu a dívida encolher para metade do patamar anterior e a frota chegar à 44 mil unidades. Em 2015, já foram abertas 19 lojas e outras 12 devem surgir até o final do ano. “A retirada do incentivo do governo aos carros novos está elevando a compra de usados e deve melhorar o desempenho desse segmento da Unidas. Devem chegar ao final do ano com uns R$ 70 milhões de lucro”, diz o principal sócio de uma consultoria que acompanha o setor automobilístico.
Fogo cerrado
O saneamento colocou a Unidas no alvo do interesse de concorrentes e investidores. A empresa ocupa uma posição estratégica no mercado. Ela está posicionada entre a Localiza, líder disparada no segmento, e a Movida, que recebeu quase R$ 700 milhões de investimento após ser comprada pelo grupo de logística JSL. “Arrumada, a Unidas seria a perfeita aquisição defensiva para a Localiza e ofensiva para a Movida”, afirma o consultor. A coisa foi além dos rumores. No início do ano, a Localiza quase fechou a aquisição da Unidas, mas a família Mattar, controladora da Localiza, não aceitou o preço pedido pelos fundos. Nem por isso o buchicho do mercado diminuiu. Nomes estipulados como possíveis compradores, além da Movida, incluem a própria Enterprise. “Eles estão demonstrando interesse pelo mercado brasileiro e, de certa forma, a parceria é um primeiro passo para um casamento”, diz um executivo que atua na área. Sobre o assunto, Almeida afirma não existir nenhuma conversa em andamento. Segundo ele, o foco é “deixar a Unidas pronta para capturar a maior parte do crescimento do mercado brasileiro”.
No mercado, muita gente não se mostra convencida disso. Há uma avaliação que, com a crise, o mercado segue fechado por tempo indeterminado para qualquer tipo de IPO – que seria a maneira das gestoras remunerarem seus fundos. Nesse cenário, uma venda seria a melhor alternativa para garantir o retorno. Também faria sentido dentro da esperada consolidação que deve chegar ao mercado nacional. Por aqui, as três maiores detêm apenas 35% de participação, enquanto nos EUA esse número é superior a 85%. Almeida afirma que “os controladores têm clareza do momento que estamos atravessando. Faremos o IPO quando o mercado estiver adequado para isso”. Ele diz sentir “zero” pressão por parte das gestoras e do grupo SAG.
Enquanto segue a discussão estratégica, a Unidas se prepara para retomar a ofensiva operacional, após o longo e tenebroso inverno da reestruturação. No mês passado, a empresa iniciou em algumas lojas o teste de um sistema de totens eletrônicos de autoatendimento, parecidos com aqueles usados pelas companhias aéreas para o check-in dos passageiros. Ao contrário dos sistemas em uso por outras empresas, a ideia seja possível realizar todo o processo na máquina, da escolha do carro ao pagamento no cartão. “O cliente só irá passar no caixa para pegar a chave”, diz o presidente. A previsão é que o sistema chegue às lojas mais movimentadas da empresa, nos aeroportos, até os últimos meses do ano.
Do Época Negócios.

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