Turismo pelas favelas cariocas atrai turistas gringos e brasileiros

As paisagens exuberantes levam uma grande quantidade de turistas ao Rio de Janeiro todos os anos. Mas engana-se, e muito, quem pensa que os passeios turísticos daqueles que visitam a Cidade Maravilhosa estão restritos às praias, ao Cristo e ao Corcovado.
Uma das atrações que ganha cada vez mais adeptos é a visita guiada entre as favelas fluminenses. A experiência de circular pelas comunidades do Rio atende ou supera as expectativas de 78,9% dos turistas que fizeram o passeio, de acordo com uma pesquisa do Ministério do Turismo, realizada em parceria com a FGV (Fundação Getúlio Vargas).
Para Roberta Souza, uma das responsáveis pelo programa Brazilidade, que promove visitas à comunidade de Santa Marta, os passeios ao morro dão aos turistas a oportunidade de conhecer uma realidade anônima para eles, contando o dia-a-dia dos moradores da favela.
— O turista que vai com a gente está interessado em saber as coisas que estão acontecendo, o que a UPP [Unidade de Polícia Pacificadora] mudou na favela e conhecer o processo de urbanização.
Somente nos primeiros meses de 2014, a Brazilidade informa que faturou R$ 11.500, valor que equivale a quase três vezes o ganho total do serviço 2013. Para cada visita guiada, que tem duração aproximada de duas horas, o preço cobrado varia de R$ 50 (brasileiros) a R$ 80 (estrangeiros). Roberta explica que a cobrança adicional aos gringos acontece pela diferença de idioma.
— A gente paga 30% do valor a um tradutor, que também é morador da favela, para ajudar a fazer o tour.
Enquanto no ano passado o serviço guiou 43 pessoas, somente nos três primeiros meses deste ano foram levados 170 turistas para conhecer a comunidade localizada na zona sul do Rio, sendo 100 deles estrangeiros. Segundo a suíça Geórgia Conus, os estrangeiros sentem um receio inicial de passear pelas favelas. Ela recorda que, depois de conhecer o Santa Marta, levou outros amigos para terem a mesma experiência e eles ficaram preocupados, mas que o medo durou pouco tempo.
— A visão deles mudou. Durante o passeio a gente ficou conversando com o pessoal lá da favela e eles gostaram muito.
Georgia, porém, diz que já conheceu outras comunidades cariocas e a experiência não foi tão tranquila quando a vivenciada no Santa Marta, onde chegou a fazer amizades.
— Em outras favelas que eu fui visitar a gente não podia sair do lugar, porque existe um perigo e, infelizmente, dá para ver que eu sou gringa.
O estudante Leandro Suares, 21, é morador de São Gonçalo, também no Rio de Janeiro, mas descreve sua visita ao morro de Santa Marta, realizada em agosto de 2013, como uma “experiência incrível”.
— Já tinha estudado o Santa Marta na universidade, mas com a visita descobri que ali existe uma realidade de pessoas com um cotidiano diferente daquele que é mostrado.
Copa na Favela
A chegada de turistas para acompanhar o Mundial também chama a atenção dos empreendedores que investem nas favelas. Dados prévios do Ministério do Turismo mostravam que somente a capital fluminense deveria receber 554 mil visitantes durante o torneio, boa parte deles interessados em conhecer ou se hospedar nas comunidades.
Pensando em atrair justamente os interessados em aproveitar o Mundial no Brasil, o projeto de visitação pelo morro Santa Marta lançou três novidades para satisfazer os turistas: um tour relacionado a influência do futebol na vida da comunidade, uma visita seguida pela exibição de uma partida do Mundial, e uma parceira para os turistas jogarem futebol com os moradores da favela.
Apesar de não saber avaliar em valores, Roberta diz que está otimista com a movimentação de visitantes que participaram do programa nos primeiros dias de Mundial.
— A gente ainda está sentido o andamento das coisas e trabalhando com a divulgação, mas ainda não paramos para pensar em valores. A gente está com uma expectativa boa. O fluxo de turistas já foi maior e a gente tem recebido um número grande de pessoas, com dois ou três tours por dia.
Pacificação
Roberta Souza afirma que a pacificação é indiferente para o modelo de negócio proposto pelo Brazilidade, que oferece visitas guiadas pelo primeiro morro que recebeu a instalação de uma UPP no Rio. De acordo com a guia, é possível traçar pontos positivos e negativos para o serviço após a pacificação do Santa Marta.
— O aspecto positivo é que para a pessoa que desconhece a favela, dá uma impressão de segurança (…) O negativo é que a gente vê essa coisa da UPP não respeitar os moradores e não serem educados com as pessoas.
Por Alexandre Garcia, do R7.

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