Pessimismo leva economia ao divã

Desde a primeira metade do século XX, os economistas trabalham para incluir em seus cálculos um sentimento, não uma variável econômica: a confiança, traduzida em expectativas para o futuro. Há listas de agraciados com prêmio Nobel que estudaram a melhor maneira de medir o medo ou a confiança no futuro.
O pessimismo se instalou em todos os agentes econômicos, do consumidor ao empresário, do investidor a quem pretendia assumir dívidas.
Empresários e analistas citam o resgate da confiança como condição imprescindível para que o país volte a crescer, principalmente depois que o IBGE anunciou na última sexta-feira que o PIB do país caiu 1,6% no primeiro trimestre frente ao início do ano passado, com as empresas investindo menos e as famílias cortando gastos.
“As expectativas jogam um papel muito importante. As pessoas projetam as ideias que têm do futuro nas tomadas de investimento e de consumo de hoje. As firmas fazem expansões, acreditando no crescimento da economia e da demanda. Se o futuro é melhor, consome-se mais hoje. As expectativas estão cada vez mais incorporadas aos modelos econômicos”, afirma o economista Aloisio Araujo, da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Esse componente intangível, abstrato da economia, quando está em queda, deprime o indivíduo. Espera-se a tempestade passar para voltar a consumir e planejar o futuro. “Se o Brasil fosse um paciente, eu receitaria antidepressivo e muita ginástica. O país está desconfiado. Acha que tudo vai dar errado, que não vai ter sorte. Se precisar de chuva, não vai chover. A realidade é a mesma, a leitura dessa realidade é que muda”, explica o psicanalista Alberto Goldin.
A enxurrada de números econômicos ruins vem abatendo o humor do brasileiro. A recessão chegou, mais 384 mil trabalhadores ficaram desempregados de um ano para cá somente nas grandes metrópoles, houve corte de cem mil vagas com carteira assinada somente em abril, o salário caiu 2,9% no mesmo período e a indústria está em queda livre desde 2010, produzindo menos que há sete anos atrás.
“Em crise, a sociedade paralisa. Comportamentos irracionais também aparecem. Alguns poucos conseguem avançar. O futuro é tão incerto que parece mais uma ameaça”, afirma o sociólogo Elimar Nascimento, professor associado da UnB.
O Brasil já viveu seu momento de euforia, quando o país seria a potência petrolífera, vendendo commodities para o mundo, lembra Goldin. “Naquela época, tudo era maravilhoso. Havia uma leitura eufórica do futuro, que tudo ia ficar bem. Agora nem água temos”.
Briga
Receios. A queda de braço entre governo e Congresso adiciona mais um ingrediente ao quadro de desesperança. Empresários e investidores temem que as medidas de ajuste fiscal não sejam concretizadas.
Do O Tempo.

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