Inflação repete mesma dinâmica vista em outras crises

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A resistência da inflação de serviços em períodos de queda da atividade econômica não é um fenômeno restrito a 2015. Para economistas ouvidos pelo Valor, os preços que cedem mais rapidamente e com mais força em conjunturas recessivas são os de bens duráveis, que têm peso pequeno no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de 10,5%. Essa configuração parece estar se repetindo neste ano, uma vez que, nos 12 meses encerrados em abril, o grupo que reúne itens como aluguel, cabeleireiro e empregada doméstica e responde por pouco mais de um terço do IPCA avançou 8,34%. Em igual comparação, a alta dos duráveis foi de apenas 3,32%.
O professor Luiz Roberto Cunha, da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio), observa que, em 2009 – quando o Produto Interno Bruto (PIB) recuou 0,2% e o IPCA desacelerou mais de um ponto percentual em relação a 2008, para 4,31% – os preços de serviços não deram refresco e ficaram praticamente estáveis entre um ano e outro, ao passarem de 6,39% para 6,37%. Já os bens duráveis caíram 1,89% em 2009, após deflação de 0,01% em 2008.
Mesmo em 2003, quando a inflação total foi influenciada por uma forte desvalorização cambial e saltou 9,3%, os duráveis foram o subgrupo com melhor comportamento dentro do índice, nota Cunha, ao aumentarem 3,88%. Naquele ano, a inflação de serviços foi de 7,32%. “Os duráveis claramente são o grupo mais afetado pela atividade econômica”, afirma o professor, por não serem bens essenciais e por dependerem do crédito, que fica mais restrito em períodos de atividade econômica enfraquecida.
Para o economista da PUC-Rio, os serviços devem responder neste ano e no próximo ao cenário de queda da renda e menor criação de ocupações, mas as transformações estruturais que ocorreram no mercado de trabalho na última década reduziram a oferta no setor ao mesmo tempo em que elevaram a demanda por serviços, o que impõe um ritmo mais lento a essa descompressão. “Os serviços não vão continuar rodando a 8% ao ano, mas não vão voltar ao centro da meta”, diz Cunha, para quem os serviços devem encerrar 2015 em 8,13%.
Luis Otavio de Souza Leal, economista-chefe do banco ABC Brasil, acrescenta que há serviços fortemente indexados à inflação passada, como o segmento de educação, o que também dificulta uma rápida perda de fôlego dos preços deste setor, assim como a regra de correção do salário mínimo, que baliza os reajustes de empregadas domésticas. “Os serviços vão reagir a essa queda do nível de atividade, mas veremos isso mais fortemente no fim de 2016 e início de 2017”, diz Leal, que projeta alta de cerca de 6,5% para estes itens em 2016, contra 8% em 2015.
Já o cenário para os bens duráveis é mais benigno e parecido com o de 2003, observa o economista do ABC, com a combinação do desaquecimento da atividade e aumento de custos do setor devido à alta do dólar e da energia elétrica. Em suas estimativas, a inflação nesse segmento deve ficar por volta de 3,5% neste ano. “Se fosse só pela atividade, haveria uma grande possibilidade de deflação de duráveis.”
Os bens duráveis e, em menor medida, os semiduráveis, como vestuário e calçados, são mais sensíveis também à confiança do consumidor, comenta Antonio Corrêa de Lacerda, professor da PUC-SP. Mesmo em situação normal da economia, produtos como eletrodomésticos e eletroeletrônicos costumam mostrar deflação na medida em que são substituídos por outros mais tecnologicamente avançados. Segundo ele, os serviços mostram desaceleração quando a atividade perde ímpeto, mas há um piso para esse segmento que tende a ser mantido.
Segundo Emerson Marçal, coordenador do Centro de Macroeconomia Aplicada (Cemap) da Fundação Getulio Vargas de São Paulo, os serviços vão começar a perder fôlego de forma mais clara nos próximos meses porque há muitos ramos dentro desse setor que são intensivos em mão de obra. “Há uma onda de demissões e os salários estão sendo reajustados a um ritmo mais lento. Como isso representa um alívio de custos, é uma ajuda à inflação”, diz Marçal, que destaca segmentos como educação, recreação, turismo e restaurantes.
Nas estimativas do Cemap, a inflação de bens comercializáveis, onde estão os serviços, vai recuar de 7% este ano para 6,3% em 2016. Para os comercializáveis, que são em sua maioria bens duráveis, a expectativa é de alta de 5,4% em 2015 e de 4,7% no ano seguinte. Esses dois grupos tendem a caminhar mais próximos por conta da atividade fraca e também do novo patamar de câmbio, comenta Marçal.
Fonte: Valor Econômico – Impresso

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