Economicamente, que país é esse?

Todos os dias a ideia de crise bate à porta da economia do país. Todos os dias a palavra crise ocupa parte do vocabulário dos empresários brasileiros que reproduzem, quase sempre, um discurso midiático e um economês que na realidade nem todos compreendem bem. Por isso, a Revista SINDLOC-MG propôs a economista Rita Mundim uma conversa sobre passado, presente e futuro do Brasil do ponto de vista econômico. Afinal, que crise é essa? Surpreendentemente, para ela, o pior já pode ter passado e o otimismo começa a ganhar espaço: “2016 já será melhor que 2015 e 2014”.
ORIGEM DA CRISE DE HOJE
Para Rita Mundim, a crise é fruto da ausência de planejamento de um modelo de crescimento econômico. “O primeiro mandato de Lula foi de uma continuação do tripé que sustentava o Real. Ou seja, uma manutenção da política econômica que já estava sendo aplicada desde o governo de Fernando Henrique Cardoso. O que do posto de vista eleitoreiro era positivo. Foi essa política econômica que elegeu FHC duas vezes. Porém, o Lula deveria, neste momento, formular um plano de crescimento econômico: como o Brasil vai crescer? Por onde? Indústria? Serviço?”. Segundo a economista, nos primeiros anos essa ausência de planejamento não prejudicou o andamento do país porque naquele momento, em 2002, o mundo estava em pleno crescimento e o setor exportador brasileiro, com o resto do mundo comprando muito, estava em pleno desenvolvimento.
“O governo passou então a privilegiar o mercado interno e forneceu um aumento real do salário mínimo. Por um lado, o crescente salarial provocou uma inclusão de pessoas na classe média baixa e por outro criou uma inflação de serviço: cabelereiro, pedreiro, empregada doméstica ficaram mais caros. Isso ainda hoje causa um impacto na inflação. Assim, o aumento real do salário mínimo é muito maior do que qualquer aumento salarial de outra categoria. Então a classe média ficou cada vez mais pobre”.
ENDIVIDAMENTO
Com essa inclusão da classe média baixa e o incentivo governamental, o crédito passou a ser o grande atrativo. “Porém, tratava-se de um crédito com taxas de juros extremamente elevadas. Essa semente provocou o fruto de hoje: o endividamento das famílias. Quem ganhou com isso? Quem financiou essa ‘nova classe média’. Em 2008, com a crise internacional, o Brasil, para não parar de crescer, passou a incentivar ainda mais o uso do crédito”. Segundo Rita, o país nesse momento passou a ter um crescimento exclusivamente a partir do crédito e do endividamento. “O modelo ideal de crescimento é via aumento de renda. O crédito é maravilhoso desde que os juros sejam compatíveis com o aplicado internacionalmente. Aqui, ao longo desses anos, aconteceu uma transferência de renda do setor produtivo para o setor financeiro. Não existe nada melhor no Brasil, nesse modelo, do que ser banqueiro”.
PRÉ-SAL
No meio do caminho, descobriu-se o pré-sal. “O grande erro vou achar que, com o pré-sal o Brasil estava rico. O governo passou a só enxergar o pré-sal e os investimentos em torno do óleo e gás. Para se ter uma ideia, 60% dos empréstimos feitos pelo BNDES foi para o segmento de óleo e gás”. Para ela, o ‘caminho da riqueza’ encontrou duas pedras no caminho: o preço do barril de petróleo que despencou no mercado internacional e a revelação da corrupção em torno da Petrobras. O pré-sal, assim, é inviabilizado.
JOAQUIM LEVY
“Uma das coisas que aos poucos foi sendo feita na gestão petista foi a desconstrução do tripé que sustentava a moeda forte: Lei de Responsabilidade Fiscal, câmbio flutuante e metas inflacionárias. O primeiro, Lei de Responsabilidade Fiscal é resumidamente a ideia de que o governo só pode gastar o que tem. Há algum tempo já gasta-se mais do que se arrecada. Hoje, o que Joaquim Levy está fazendo? Cortando gastos. Por exemplo, os excessos do Fies. Qualquer pessoa podia ter Fies. Ora, é preciso ter mais critério com o dinheiro público. O Levy é um nome excepcional! Ele, de uma forma muito rápida, já conseguiu sinalizar melhoras.”
REPRESAMENTO DE PREÇOS
Outro ponto para Rita é o represamento de preços. “Há algum tempo o preço da gasolina no Brasil é irreal. Para mantê-lo, o governo vendia o combustível mais barato do que comprava. A Petrobras tinha caixa para isso. De repente, tivemos que alcançar de uma só vez o preço que deveria ter subido aos poucos. O mesmo aconteceu com o dólar. O que é o dólar? A relação de troca do Brasil com o exterior. É o que mede nossa competitividade e o nosso poder de compra. Hoje nós temos um câmbio de equilíbrio muito mais justo do que se tinha antes. Antes o valor do dólar era artificial, represado”.
OTIMISMO
Para a economista, esse ano é o ano do purgatório. “Caminhamos para uma correção dos excessos. Estamos pagando a conta dos combustíveis, dos medicamentos, das energias, do câmbio que deveria ter sido flutuante e não foi. Aos poucos, ao que tudo indica, isso vai sendo corrigido. Quando setembro vier, acho que a gente já vai conseguir levantar a cabeça e olhar para frente. 2016 já será melhor que 2015 e 2014. Quando Levy fala que estamos em uma transição, ele tem razão. É hora de voltar ao equilíbrio fiscal, ou seja, não gastar mais do que ganha. Dias melhores virão. O grande lance nos próximos anos será o crescimento do turismo interno. Vai crescer muito. Ninguém vai mais para Paris, para Buenos Aires, mas sim para as cidades brasileiras. E com o câmbio em ordem, o setor exportador volta a ser competitivo e com certeza contribuirá para melhorar a economia no Brasil”.
Por Leandro Lopes (texto e foto).

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