Copa do Mundo no Brasil: “Travelmetrics”, ou como dados processados poderiam desafiar a sabedoria convencional

Copo-do-Mundo-Brasil-2014

Por Pascal Clement*

 

Quem assistiu ao filme Moneyball – O Homem que Mudou o Jogo (2011), com Brad Pitt, sabe o básico sobre sabermetrics. Para quem não viu, uma breve descrição do Wikipedia pode ajudar: “análise empírica do baseball, especialmente das estatísticas sobre o baseball, que medem as atividades dos jogos”. De fato, isso poderia ser traduzido como um grupo de cientistas de dados de inteligência processando toneladas de dados e tentando gerar “estatísticas avançadas” para obter um conhecimento melhor e mais profundo sobre o jogo de baseball.
 
No filme, o personagem de Brad Pitt utiliza o sabermetrics para desafiar a sabedoria convencional e orientar um grupo de jogadores abandonados e desvalorizados para uma sequência recorde de vitórias e até mesmo a disputa do campeonato. Em suma, ele utiliza uma compreensão profunda de seu negócio por meio de estatísticas para explorar ineficiências de mercado.
 
No mercado de turismo, a mesma lógica pode ser usada para transformar dados brutos em informações significativas, por meio da geração de estatísticas avançadas, para obter um conhecimento melhor e mais profundo sobre a indústria de viagens. Isso poderia ajudar a desafiar a sabedoria convencional e a capacitar os profissionais da área para explorarem as ineficiências do mercado.
 
Um exemplo é a Copa do Mundo, que acontece no Brasil em 2014. Todos os organizadores de grandes eventos dizem que o fluxo de turismo para o país irá crescer substancialmente. A Embratur – Instituto de Turismo Brasileiro – estimou no ano passado que cerca de 600 mil turistas estrangeiros irão visitar o Brasil na Copa do Mundo. Provavelmente, esse será o caso. Até mesmo as estatísticas das últimas Copas do Mundo confirmam estas estimativas: A África do Sul alcançou um aumento de 22% no turismo depois da Copa do Mundo de Futebol de 2010.
 
O “travelmetrics” pode dar uma visão mais profunda e precisa daquelas previsões? Parece que sim. Pode se começar processando alguns dados de busca. As buscas de viagens ao Brasil durante os meses de junho e julho atingiram o pico em 06 de dezembro de 2013, segundo análise publicada pela Amadeus. Esse, não coincidentemente, foi o dia em que a FIFA realizou o último sorteio do torneio. Desde então, os volumes de buscas mantiveram-se relativamente elevados.
 
Então, agora já se sabe que houve mais procura por voos para o Brasil, mas é preciso ter certeza de que eles foram realmente impulsionados pelos jogos. Quando são avaliados os dados dos dias de partida inseridos nas pesquisas realizadas, é possível verificar que as buscas por partidas nos dias próximos a 12 de junho são mais do que dez vezes maiores do que maio ou agosto. Não é uma surpresa, novamente, dado que o lançamento do torneio será nessa data. Dessa perspectiva, parece que as previsões da Embratur estão corretas.
 
Mas, novamente, o “travelmetrics” é sobre olhares mais profundos nos números. Então, deve-se levar essa análise a um passo adiante. Um dos melhores proxies para saber se essa busca – que pode ser vista como uma demanda potencial – irá se transformar em um grande fluxo turístico é, com certeza, o aumento da capacidade de voos regulares para o Brasil. A capacidade para junho e julho irá subir 7% e 5%, respectivamente. Isso parece ser um aumento notável, especialmente quando comparado aos 1% e 3% no ano passado. Mas não tanto quando notado que isso é apenas sobre a média de crescimento do ano, e que agosto terá um crescimento de 8% de assentos disponíveis. Então, talvez esses potenciais 600 mil turistas estrangeiros tenham dificuldade de chegar ao Brasil?
 
Sim. E isso poderia muito bem ser por causa das ineficiências do mercado – lembre-se, “travelmetrics”, assim como o sabermetrics, são melhor usados para encontrar ineficiências de mercado. Quando comparados os dados de busca e capacidade de assentos, a descoberta mais marcante é que 47% das buscas têm o Rio de Janeiro como destino, mas os assentos disponíveis para o Rio são menos da metade quando comparados com aqueles disponíveis para São Paulo, que possui apenas cerca de metade das buscas.
CIDADES
 
Então isso significa que as companhias aéreas estão perdendo oportunidades de negócios por não oferecerem voos suficientes para o Rio? Ou que, contrariando a sabedoria convencional, a Copa do Mundo não trará o fluxo massivo de novos viajantes? Não se sabe. Esta é apenas uma primeira abordagem para todo o âmbito da Inteligência de Viagens, e para obter conclusões definitivas seria necessário incluir vários outros elementos, como reservas reais e fatores de ocupação de assentos, muitos dos quais não estão disponíveis ainda.
 
Mas isso serve para dar uma olhada na capacidade do “travelmetrics” de ir ainda mais fundo nos dados, e no grande potencial que a utilização destas métricas possui para fazer a diferença no futuro da indústria de viagens.
 
Por Pascal Clement, Chefe de Inteligência de Viagens da Amadeus
 
Fonte: rma comunicação corporativa

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