Com time de 8 mil programadores, GM testa concessionária do futuro

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Alvin Kowalik já comprou muitas picapes da General Motors Co. ao longo dos anos. Mas, no ano passado, o pecuarista de Selma, no Estado do Texas, fez algo novo e comprou uma picape através do site Shop-Click-Drive (algo como “compre com um clique e dirija”, em tradução livre) da GM.
“Eu encontrei a picape, listei minha caminhonete usada e me informaram o preço de venda. Uma mulher simpática me ligou da concessionária, fechamos o negócio pelo telefone, eles me trouxeram o veículo e eu assinei os papéis”, disse Kowalik.
Para Kowalik, de 68 anos, a transação foi fácil. Para a GM, o negócio efetivamente levou três anos, envolvendo uma reforma em sua infraestrutura de computadores. O primeiro passo foi a criação de sua própria unidade de desenvolvimento de software e a elaboração de programas que refletissem a preferência dos clientes nas compras on-line.
Dois anos atrás, o diretor de tecnologia da informação, Randy Mott, encerrou um contrato de terceirização da GM de US$ 3 bilhões com a Hewlett-Packard Co., substituindo esse e outros acordos pela contratação de 8 mil engenheiros de software da GM, bem mais que os 1.400 anteriores. “Como trouxemos o trabalho [de tecnologia de informação] de volta para casa, tiramos os limites do que é possível”, disse Mott em uma entrevista ao The Wall Street Journal.
A GM está entre as empresas – incluindo a General Electric Co. e a Tesla Motors Inc. – que estão criando software customizados para produtos e uso interno. Elas acreditam que esta é a melhor forma de se diferenciar e responder o mais rápido possível às preferências dos clientes.
novo foco em software customizado desenvolvido internamente cria um desafio potencial para as empresas de terceirização de tecnologia como a HP e a Dell Inc., assim como aos fornecedores de pacotes de software corporativo genérico, que são desenhados para atender necessidades comuns, como a Microsoft Corp., a Oracle Corp. e a SAP SE. Embora eles ainda tenham um papel a desempenhar mesmo em projetos personalizados como o Shop-Click-Drive, o papel tende a ser menor.
Ainda é muito cedo para dizer se os investimentos da GM em tecnologia da informação já tiveram um impacto discernível nos lucros. Mas a tecnologia levou a mudanças significativas na forma de a empresa operar e chegar ao mercado, o que ajudou a abrir novas fontes de receita, como a captura de compradores on-line.
As mudanças nos negócios da montadora foram tão complexas quanto a tecnologia adotada. “A compra de carros on-line é considerada o Santo Graal há décadas. É difícil”, diz Ryndee Carney, porta-voz da GM. Muitos consumidores estão interessados em comprar veículos on-line, mas o tamanho da transação pode levá-los a mais reflexão sobre o processo, diz Carney. Nos Estados Unidos, leis estaduais também obrigam que novos veículos sejam vendidos através de uma concessionária, não do fabricante ou de terceiros. Comprar um carro novo na Amazon não é permitido.
Até agora, o mais perto que o mercado chegou das compras on-line para novos veículos foi através de sites de terceiros como o TrueCar Inc., que vende dicas de potenciais compradores para as concessionárias. A GM informa que trabalhou com as concessionárias para dar a elas uma alternativa. Ao contrário dos sites de terceiros, o Shop-Click-Drive é integrado à plataforma digital da concessionária, e ela o usa gratuitamente. A proporção de conclusão de negócios no Shop-Click-Drive é mais alta também – de 30%, comparado com no máximo 22% nos sites de terceiros, segundo Carney. Até agora, cerca de 1.800 das 4.300 concessionárias da GM concordaram em participar do programa, diz ela. A executiva não quis discutir quais são as margens obtidas com o programa em comparação com aquelas dos canais tradicionais de vendas. Em seu primeiro ano de operação, o Shop-Click-Drive ajudou a vender cerca de 15 mil veículos.
A plataforma Shop-Click-Drive foi uma iniciativa desenvolvida a partir do zero ao longo de dois anos, criada para ligar potenciais compradores com concessionárias que possuíam os carros desejados por eles. A GM contratou a desenvolvedora de software Entrega Systems Group Inc., em Troy, no Estado de Michigan, para desenvolver um pequeno piloto para o programa. A GM informou que suas equipes internas, incluindo os engenheiros de software, especialistas em testes e analistas de negócios, trabalharam em áreas como o servidor da plataforma – os bastidores que os clientes costumam não ver – e a ferramenta de software que conecta as concessionárias à montadora. Os aplicativos personalizados são integrados a componentes comerciais, como um centro de dados da Oracle, informa a GM.
A Shop-Click-Drive funciona como uma ponte eletrônica. Um cliente que clica no site é automaticamente direcionado para o site de uma concessionária. A troca eletrônica acontece nos servidores da GM em Warren, no Estado de Michigan. As concessionárias enviam eletronicamente seus dados de estoques diariamente para a GM. Entretanto, as informações coletadas do cliente não são mantidas pela GM.
“Nós passamos as informações do cliente, como nomes e endereços, para a concessionária e as informações financeiras, como dados de crédito, para nosso sócio RouteOne, que salva os dados do cliente em seus servidores em Farmington Hills, em Michigan, antes de passá-los para os bancos” escolhidos pela concessionária, diz Jim Bement, administrador da Shop-Click-Drive. “Uma vez que esse processo é feito, a informação é automaticamente apagada” dos servidores da GM.
A medida protege a GM, já que a montadora não vende veículos diretamente aos clientes em função de seu acordo com a rede de concessionárias. O site também está programado para trabalhar com fornecedores de informações como a Kelley Blue Book, firma especializada em dados e avaliações de carros usados.
“Não tem como uma concessionária fazer algo assim sozinha”, diz Bement. “Elas não têm os recursos financeiros e não têm acesso a toda a tecnologia que temos na sede.”
Segundo Mott, a montadora está nos estágios iniciais de alavancar essa nova capacidade de software e computação. Mas ele duvida que o Shop-Click-Drive seria construído sem esses investimentos. Antes, “os engenheiros […] estavam limitados quanto aos recursos de computação que poderiam usar e os aplicativos que poderiam operar”, disse ele.
No momento, a GM está avaliando o sucesso do programa nos EUA e apenas depois vai considerar levar o Shop-Click-Drive para outras partes do mundo. Não há previsão de quando a plataforma chegará ao Brasil.
(Colaborou Clint Boulton.)
Fonte: Valor Econômico – Impresso

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