Socorro do governo será inútil se comprador continuar na retranca

  • Caixa e BB abriram R$ 8,1 bilhões em crédito para reestimular setor de autopeças; como voltar a crescer e salvar empregos se falta confiança ao consumidor?Caixa e BB abriram R$ 8,1 bilhões em crédito para reestimular setor de autopeças; como voltar a crescer e salvar empregos se falta confiança ao consumidor?

O Governo Federal perdeu mais uma batalha de comunicação ao anunciar o novo programa de financiamento industrial para a cadeia de produção automobilística. Outra vez passou a impressão de que estava socorrendo um segmento considerado privilegiado, com juros subsidiados, em detrimento dos demais setores da economia, inclusive o de pequenas e médias empresas.
Erros já começaram quando Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil convocaram a imprensa, com intervalo de 24 horas, para comunicar os mesmos assuntos com quase nenhuma nuance que os distinguissem. A ideia é injetar R$ 8,1 bilhões (R$ 5 bilhões da Caixa; R$ 3 bi do BB) para apoiar os produtores de autopeças, em especial os de menor porte, numa fase em que se perderam, em menos de dois anos, mais de 50 mil empregos entre fabricantes, fornecedores e concessionárias.
Pareceu bastante claro que os dois bancos públicos atuaram sem coordenação e com pouca convicção sobre as propostas. Também ficou mal explicado que o “socorro” envolveria uma espécie de contrapartida de evitar demissões, o que no momento parece difícil de controlar. Afinal, é o comprador que precisa ser convencido a sair da retranca do consumo.
Na véspera destes dois anúncios, durante o seminário Planejamento Automotivo 2016, organizado em São Paulo pela Automotive Business, o clima de pessimismo em uma pesquisa eletrônica instantânea contagiou o próximo ano e até mesmo o início de 2017. Para dois terços dos 360 presentes, o número de empresas de autopeças vai diminuir, seja ao cerrar as portas ou por aquisições e fusões. Em todos os casos vão-se os empregos.
 

Retração afeta não só fabricantes e concessionários,

como também fornecedores de peças

Dependência arrecadatória

A cadeia de produção automobilística é longa: 5 milhões de pessoas vivem dela de forma direta ou indireta, com salários médios bem acima dos setores de construção civil e de serviços. Seu faturamento alcança 5% do PIB (em países centrais como Estados Unidos, Japão e Alemanha a proporção é semelhante) com a diferença desproporcional de que, aqui, ela responde por mais de 10% da arrecadação de impostos. Assim, um governo à caça de receitas para se sustentar acaba por dar suporte de alguma forma aos fabricantes de veículos.
Para complicar, a média de idade do parque fabril brasileiro é estimada em 17 anos (na indústria automobilística, defasagem menor), contra sete nos EUA e cinco na Alemanha. Robotização poderia aumentar a produtividade, mas investimentos são altos e, num primeiro momento, eliminam empregos.
Um programa de renovação da frota bem planejado, como aconteceu na Europa, ajudaria a animar o mercado e a preservar empregos. Porém, se até o plano de substituição de caminhões muito velhos — 30 anos ou mais — não consegue sair do papel, o que dizer sobre automóveis? Poder aquisitivo baixo e em baixa, por razão da inflação, só adiciona desânimo em um momento de falta de confiança na economia, nos governos e nos políticos.
Esta é a terceira grande crise que atinge a indústria automobilística, sem contar períodos de estagnação ou de baixo crescimento. As duas primeiras foram causadas, respectivamente, pelo choque de preço do petróleo (anos 1980) e dificuldades para sair da hiperinflação (década de 1990). Uma durou 10 anos; a outra, sete. Quem sabe essa termine em quatro anos.
Fonte: UOL Carros

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