Seguradoras reveem grandes riscos no Brasil

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A forte competição e um volume de negócios menor do que o esperado têm forçado seguradoras que atuam com grandes riscos a rever sua estratégia no Brasil. Algumas estão deixando de operar na área, caso do Itaú Unibanco e da inglesa RSA, enquanto outras estão diminuindo o passo, como a alemã Allianz e a americana Liberty, afirmam executivos do mercado.
Nos últimos cinco anos, o fim do monopólio do mercado de resseguros e o anúncio de obras de infraestrutura associadas ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e às construções para Copa do Mundo e Olimpíada foram a senha para que as seguradoras aumentassem a aposta na área. Foram feitos investimentos em contratação de equipes especializadas e em ampliação de limites de contratos de resseguro – o que aumenta a capacidade de a seguradora assumir riscos grandes. Segmentos como o de riscos de engenharia, responsabilidade civil e garantia para as obras, entre outros, viraram a menina dos olhos das seguradoras no período.
As expectativas, porém, acabaram não se concretizando. Além de parte dos negócios sequer ter acontecido – caso do trem-bala -, houve uma forte pressão nos preços desses seguros, graças ao excesso de competição no segmento. Diante desse quadro, a saída foi se concentrar em segmentos com mais perspectiva de rentabilidade, como a maior parte dos produtos para o varejo.
No caso do Itaú, que está vendendo sua seguradora de riscos corporativos, entrou em cena também a maior exigência de capital pelas regras de Basileia 3. O banco está na reta final da venda da operação de grandes riscos e, recentemente, reestruturou sua operação de seguros de varejo, que tem boa rentabilidade, para capturar oportunidades com os clientes do próprio banco.
Há quase um mês, quando anunciou que deixaria de atuar com grandes riscos, o presidente da RSA Seguros Brasil, Thomas Batt, disse que a companhia havia revisado sua estratégia no país e elegido negócios com perspectivas de mais rentabilidade e sustentabilidade. Dessa forma, a companhia vai focar em seguros de transportes, frota de automóveis, seguros para pequenas empresas e afinidades – seguros vendidos por meio do canal de parceiros, geralmente em redes de varejo.
No caso da Allianz, há cerca de três semanas a seguradora dispensou três profissionais da área de grandes riscos, incluindo o diretor Edson Togushi. Isso, associado ao menor número de negócios que tem feito, passou a impressão ao mercado de que estão tirando o pé do acelerador. A carteira de riscos de engenharia da seguradora, por exemplo, encolheu 58% em 2013, para R$ 38 milhões. No mesmo período, o segmento como um todo andou de lado, com pequeno recuo de 2,5%. Procurada, a Allianz informou, via assessoria de imprensa, que o desligamento dos profissionais se refere “unicamente a questões corporativas e não estratégicas” e reafirmou que a área de grandes riscos é “fundamental” dentro de sua estratégia de crescimento para os próximos anos.
Já na Liberty, a divisão de riscos especiais – chamada de LIU – perdeu alguns executivos e demitiu outros nos últimos tempos. Paulo Umeki, vice-presidente de seguros pessoais da Liberty, disse que essa é uma movimentação de funcionários normal no mercado e que a companhia trouxe outros executivos para ocupar as cadeiras. Ele disse que o foco da companhia é explorar pequenos e médios riscos e varejo – não é para menos que está patrocinando a Copa do Mundo para tornar a marca mais conhecida -, mas negou que a LIU esteja deixando de operar com riscos maiores. A carteira de riscos de engenharia da companhia, porém, recuou 50% em 2013.
A grande competição e os preços baixos vão causar uma “seleção natural” no mercado de grandes riscos, afirma um executivo com experiência no setor. “Só vai ficar quem tem isso no DNA”, diz. O que significa que só fica quem tiver uma resseguradora no grupo, apoiando os negócios da seguradora. O tamanho será outro fator determinante para a sobrevivência no segmento. “A escala ajuda a absorver a volatilidade e os períodos de altas e baixas nos preços”, diz o executivo de uma resseguradora.
“Virou um jogo de grandes multinacionais especializadas que têm capacidade [de absorção de riscos]”, destaca Thomas Andersson, líder da divisão de riscos patrimoniais, responsabilidade civil e produtos financeiros da corretora Marsh. Como se trata de coberturas com volumes muito altos, uma companhia que opera em vários países tem como suportar uma perda numa operação com os ganhos de outra. Ainda assim, Andersson insiste que, apesar do atual cenário macroeconômico desfavorável e da volatilidade no câmbio, as empresas de seguros internacionais veem o Brasil como um mercado com alto potencial de crescimento.
Nos últimos anos, começaram a atuar no segmento Argo, Austral, BTG Pactual, J. Malluceli em parceria com a americana Travelers, Swiss Re (após a aquisição da UBF), a alemã HDI (que trouxe seu braço de riscos industriais, a HDI Gerling) e a canadense Fairfax. A francesa Axa aguarda autorização do órgão regulador para começar a operar no país e é uma das candidatas a comprar a operação do Itaú. Em comum, quase todas têm uma resseguradora suportando a operação de seguros. E, como são multinacionais, têm maior capacidade de pulverizar riscos.
As seguradoras nacionais foram saindo aos poucos de grandes riscos nos últimos anos. O Bradesco reduziu bastante sua exposição na área e hoje privilegia negócios com empresas que já têm relacionamento bancário com o grupo. A SulAmérica, após sofrer perdas com altos volumes de indenizações com alguns clientes, reduziu bastante sua carteira e resolveu dar foco na operação de varejo.
Uma boa medida da volatilidade dos resultados e da margem apertada do segmento no Brasil foi o resultado das resseguradoras locais – que têm reserva de 40% do mercado – no ano passado, quando o lucro recuou 50% em relação a 2012.
 
Fonte: Valor Econômico – Impresso

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