Raridade do Brasil, extintor obrigatório divide opiniões

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O uso obrigatório do extintor de incêndio veicular ABC agora é para valer. Depois de adiar a decisão do Conselho Nacional de Trânsito por duas vezes, em primeiro de janeiro e primeiro de abril, o Departamento Nacional de Trânsito confirma para primeiro de julho a entrada em vigor da norma. Na internet, é possível encontrar o dispositivo por preços que variam de R$ 99 a R$ 138.
“O objetivo da troca dos extintores de incêndio é garantir maior segurança aos motoristas e passageiros”, justifica o Denatran, via assessoria de imprensa. “Os extintores ABC são os mais modernos e atendem todas as classes de incêndio”, assegura.
O produto deverá equipar carros de passeio, utilitários, caminhonetes, caminhões, tratores, ônibus e triciclos de cabine fechada. Trafegar sem o ABC constituirá infração grave (cinco pontos na CNH) e multa de R$ 127,69. A troca de extintor será obrigatória para todos os veículos com produtos BC ou ABC vencidos (mais de cinco anos de fabricação).
A obrigatoriedade do extintor no carro é contestada por entidades no Brasil, como a Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA) e a Proteste – Associação Brasileira de Defesa do Consumidor, e defendida por outras, como a Associação Brasileira das Indústrias de Equipamentos contra Incêndio e Cilindros de Alta Pressão (Abiex).
Para Maria Inês Dolci, coordenadora institucional da Proteste, a obrigatoriedade do equipamento sem treinamento dos condutores é inócua. “É um dinheiro jogado fora, já que a medida não obriga o dono do carro a passar por treinamento que o habilite a usar o extintor em casos de emergência.”
Na avaliação da associação, o uso obrigatório do extintor de incêndio “é mais uma tentativa do Contran de gerar gastos indevidos aos brasileiros, como nos casos do sistema antifurto e do kit primeiros socorros, posteriormente abandonados.”
O Brasil é um dos poucos países onde os extintores de incêndio veiculares são obrigatórios. Nesse restrito clube estão Bélgica, Turquia, Bulgária, Polônia, Egito, Estônia, Israel, Lituânia, Luxemburgo e Romênia. Países como a Dinamarca, a Noruega e a França aconselham, mas não exigem a presença do equipamento no veículo.
Com a evolução dos sistemas de injeção eletrônica nos carros e a maior eficiência das linhas de combustíveis, cilindros vermelhos caíram em desuso mundo afora. Grandes fabricantes de automóveis, como Estados Unidos, Alemanha, Japão, Itália, Suécia, China e Canadá, não obrigam o uso de extintores de incêndio veicular. Na Inglaterra e na Islândia, o extintor é obrigatório em ônibus e táxis.
Por conta da exigência, as montadoras no Brasil têm de desenvolver suportes específicos nos carros importados, pois os projetos originais não preveem espaço para o extintor. Por vezes, o dispositivo é colocado em posição que dificulta a sua retirada em caso de emergência.
O próprio Denatran reconhece que “o treinamento é defendido pelo Corpo de Bombeiros”, porém sem sucesso. E não há estatísticas que amparem a obrigatoriedade do uso do extintor de incêndio no veículo. Nem mesmo a Abiex tem números sobre o assunto. A entidade justifica que “nenhum veículo está imune a incêndios”, que as causas “não costumam estar ligadas à idade ou modelo do veículo” e que, apesar dos avanços tecnológicos e da introdução de novos sistemas de segurança, “os incêndios em veículos não são raros.”

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A Abiex alega que os “produtos inflamáveis presentes nos carros podem ignizar a partir de um curto-circuito ou falha elétrica, provocando um princípio de incêndio.” Outro risco seria provocado por eventual vazamento do combustível por mangueiras de distribuição. De acordo com a associação, “em vários acidentes, o corte automático do combustível não foi suficiente para evitar a combustão.”
Os dados são contestados por Ronaldo de Breyne Salvagni, professor titular e coordenador do centro de engenharia automotiva da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e conselheiro da AEA. “Esses dados não devem se referir apenas a princípio de incêndios, tanto que nos EUA seu uso não é obrigatório”, afirma. Para Salvagni, poucos lugares no mundo exigem o equipamento, pois é “desnecessário para pequenos focos de incêndio, que podem ser apagados por simples abafamento, e insuficiente e inútil para incêndios maiores.”
Para Marcus Vinicius Aguiar, diretor-técnico da AEA, “com a atual tecnologia automotiva não há necessidade do uso do extintor nos veículos, pois possuem materiais de revestimento do habitáculo com velocidade de propagação de chama controlada.” Segundo Aguiar, seria necessário que houvesse “estatísticas nacionais sobre a eficácia do extintor no controle do fogo.”
O extintor
O tipo ABC é mais completo que o BC, utilizado anteriormente. Além de combater incêndios das classes B, que são líquidos inflamáveis, e C, equipamentos elétricos, também combate as chamas da classe A, que envolve materiais usados em painéis, bancos, revestimentos internos, mangueiras de borracha e forro do capô do motor. Sua validade é de cinco anos e não pode ser recarregado. Porém, uma vez acionado, deve ser completamente descarregado e substituído por um novo.
O incêndio
Caso ocorra algum princípio de incêndio, a Abiex destaca que o motorista deve se lembrar que se a fumaça for branca e sem cheiro, provavelmente trata-se de vapor de água (radiador). Caso a fumaça seja escura e densa, com cheiro forte, o motorista está diante de um efetivo princípio de incêndio.
Como usar o ABC
Nesse caso, a Abiex recomenda ao motorista: 1) que o veículo seja estacionado em local seguro, 2) que retire os passageiros e mantenha a calma, lembrando que o tanque do combustível, em geral, está bem longe do motor.
Em seguida, retirar o extintor do suporte, romper o lacre, destravar a válvula e posicioná-lo a favor do vento. Com o extintor na posição vertical, deve-se encaixar o bico da válvula através de uma pequena abertura do capô do motor. Feito isso, acionar a válvula para iniciar o abafamento do fogo.
Depois disso, levantar cuidadosamente o capô do motor e continuar descarregando até o fim, direcionando o jato de pó para a base do fogo, movimentando o pulso para a esquerda e para a direita, em forma de leque. Uma vez eliminado o fogo, é preciso assegurar de que não houve reignição (reinicio do fogo).
Vale lembrar que no Brasil 12 empresas estão habilitadas a produzir extintor de incêndio veicular, segundo site do Inmetro. Um mercado que produziu, somente em 2014, exatas 3,146 milhões de unidades e, neste ano, até abril, 743.678.
Fonte: Auto Esporte

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