Preço do carro zero avança 5,3% no primeiro semestre do ano

Basta ligar a televisão de manhã para começar a chover os anúncios de condições facilitadas para a compra de automóveis zero quilômetro. Durante o mesmo intervalo, a Toyota oferece o Etios a preço de fábrica, a Fiat concede o IPVA “de graça”, a Renault faz ofertas para a linha inteira, a Volkswagen anuncia Gol e Fox com parcelas reduzidas e a Chevrolet prorroga promoções. Tudo para atrair o consumidor até a loja e retomar as vendas, que no primeiro semestre de 2014 apresentaram uma queda de 7,3% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo a associação de revendedores Fenabrave.
Mas mesmo com os estímulos oferecidos pelas montadoras, não será fácil compensar o fraco desempenho do setor nos primeiros seis meses do ano, acreditam analistas. A Fenabrave responsabiliza principalmente a redução da oferta de crédito no país e baixa confiança do consumidor. Mas há também outro fator que contribui para afastar os brasileiros das concessionárias: a escalada dos preços dos carro zero quilômetro no mercado nacional.
De acordo com um levantamento feito por Autoesporte, os preços divulgados nas listas sugeridas pelas marcas para os 10 carros zero mais vendidos no país subiram 5,3% entre janeiro e junho de 2014. Para efeito de comparação, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) registrou um aumento de 3,75% nos primeros seis mesmes de 2014. O aumento na tabela também é bastante superior ao verificado entre junho e dezembro de 2013, quando a variação de preços ficou na casa dos 1,5%.
Porta-vozes do setor justificam a alta nos preços à inclusão de airbag duplo e freios ABS e também à reposição do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) no início do ano. No entanto, os valores continuaram subindo nos meses subsequentes à adoção das medidas, inclusive para modelos que já dispunham dos itens de segurança obrigatórios.
É o caso do Chevrolet Prisma. Em seis meses, o sedã passou por três reajustes de preço, que somados representam uma das maiores altas entre os modelos mais emplacados: 10,43%. Esse índice que representa um aumento de R$ 3,9 mil na versão de entrada LT. Sugerido a partir de R$ 37.390 em janeiro, o preço do sedã acompanhou o aumento de popularidade do carro, que em junho alcançou a faixa dos R$ 41.290 – valor que já subiu novamente para R$ 41.396 em julho. Nesse tempo, a única mudança no conteúdo do modelo ocorreu em maio, com a chegada da linha 2015, quando ar-condicionado foi integrado aos itens de série da configuração mais básica.
Mas o sedã da Chevrolet não foi o único a ter o passe valorizado no primeiro semestre. O hatch Ford New Fiesta também aproveitou as bonanças nas vendas para capitalizar e ficar R$ 3 mil mais caro. Hoje, sugerido a partir de R$ 42.890, ele entrou em 2014 custando R$ 39.890. Diferentemente do sedã da GM, o hatch, por enquanto, não sofreu alterações no kit de equipamentos.
Já o Fiesta Rocam registrou o maior aumento de todos: 17,6%. De R$ 26.990, em janeiro, ele saltou para R$ 31.740 a partir de abril. Mas há uma justificativa: o produto passou por reposicionamento de mercado e passou a ser vendido apenas em versões mais completas, com direção hidráulica, vidros e travas elétricas, ar-condicionado, faróis de neblina e computador de bordo.
Preços elásticos
O primeiro fator a impactar os preços dos carro em janeiro foi a alta do IPI. À época, Associação Nacional de Veículos Automotores (Anfavea) estimava o aumento de 1,1% nos preços para cada ponto percentual adicionado ao imposto. No caso dos carros com motor flex, cuja alíquota passou de 2% a 3%, o aumento seria de 1,1%. Já nos modelos com motores flex de 1.0 a 2.0, a taxa subiu de 7% para 9%. Sendo assim, esse aumento de 2% do IPI acarretaria uma alta 2,2% sobre os preços dos modelos dessa categoria.
Depois, entre abril e junho, a alta dos preços foi acompanhada pela mudança do ano/modelo dos carros, política que já faz parte do calendário e até é esperado pelo consumidor, especialmente quando há alterações no visual, acabamento e pacote de equipamentos dos carros. Neste ano, no entanto, em vários casos os reajustes apareceram desassociados da chegada da linha 2015. Em seis meses, o Fiat Siena, sedã de entrada da montadora italiana, passou por cinco reajustes e ficou R$ 2.200 mais caro. VW Fox também teve a tabela alterada cinco vezes e encareceu R$ 1.700.
Otto Nogami, professor de economia do Insper, sugere a teoria de que, antevendo um ano fraco para a indústria, as montadoras adotaram a estratégia de aumentar os preços gradativamente para compensar parte do prejuízo até o fim do ano. “Isso é bastante comum, em outros setores, como o agrícola. Prevendo uma safra ruim lá na frente, ele embute um custo a mais no produto agora para compensar perdas futuras”, argumenta.
Mas, como as próprias propagandas de feirões e promoções sugerem, os preços de tabela acabam não sendo seguidos a rigor, especialmente em um contexto de retração de mercado. Na hora da compra, os carros recebem descontos vantajosos sobre o preço de vitrine – mesmo que, na prática, o desconto acabe compensando apenas o aumento de preço que o carro já havia recebido.
Por Tereza Consiglio, do AutoEsporte.

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