Moradores da Grande BH estão abandonando o transporte coletivo e assumindo o volante

O que se percebe em ruas cada vez mais apertadas e no semblante esgotado de quem usa ônibus em Belo Horizonte e região metropolitana agora está descrito em números. Moradores da Grande BH estão abandonando o transporte coletivo, assumindo o volante e, seja em um caso ou em outro, perdendo cada vez mais tempo no trânsito. Na última década, o número de viagens feitas em veículos individuais quase triplicou e, em 2012, chegou a 30,8% do total. A taxa é quase igual aos 31,4% de deslocamentos pelos meios de transporte de massa, como ônibus e metrô (uma parcela que, em 2002, era de 44,2%). Os dados fazem parte da Pesquisa Origem Destino, que teve resultados apresentados ontem pela Secretaria de Estado de Gestão Metropolitana (Segem). As estatísticas constatam que a quantidade de automóveis aumentou e, com ela, o quanto se gasta para ir de um lugar a outro: a média geral aumentou de 28 para 35 minutos.
A população da Grande BH cresceu 10% entre 2002 e 2012, saltando de 4,51 milhões para 4,96 milhões de habitantes. Já a frota mais que duplicou no mesmo período, passando de 1,09 milhão para 2,45 milhões de carros, motos, caminhões e ônibus. A região metropolitana tem hoje um veículo para cada dois habitantes, proporção que era de um para quatro há uma década. Mas na capital a situação é pior e se aproxima do empate: total de 1,51 milhão de automóveis no ano passado, ou um para cada 1,58 habitante.
Com ruas e avenidas mais disputadas, uma das consequências é a maior duração dos deslocamentos. No caso dos meios de transporte individuais, o tempo médio aumentou 39,1%, de 23 para 32 minutos. Mas a situação piorou mais para quem depende do sistema público, cujas viagens passaram a durar 62 minutos, 47,6% mais que os 42 minutos de 2002. Situação que fica evidente nas vias que estão entre as mais movimentadas da Grande BH, no Complexo da Lagoinha.
O transporte coletivo é mais procurado por quem está na faixa de renda de até dois salários mínimos (R$ 1.356). Depois desse patamar, os veículos individuais tomam a dianteira e chegam a responder por mais de 80% das viagens entre os que têm renda superior a 20 salários mínimos (R$ 13.560). Em toda a Grande BH, os deslocamentos não motorizados, como os feitos a pé ou de bicicleta, ainda são os mais comuns: abrangem 37,7% das viagens, pouco mais que os 37,4% de 2002. Essa modalidade aumentou 171% na última década e é usada em mais da metade das viagens de quem ganha até dois salários mínimos, enquanto atinge pouco mais de 10% no caso dos mais bem remunerados.
A estudante Geisiane Oliveira, de 22 anos, sempre vai de ônibus do Centro da capital, onde mora, até a faculdade, no Bairro Caiçara, Região Noroeste. “Se não for horário de pico, gasto uns 15 minutos. Na hora do rush, o tempo sobe para cerca de uma hora. Passo pelo Elevado Castelo Branco e pela Avenida Pedro II, que sempre estão cheios”, explica. Ela reclama do desconforto de depender dos coletivos e planeja comprar um carro assim que tiver condições. “O ônibus fica lotado e sempre vou em pé. Com toda a certeza, se eu pudesse só andaria de carro, com ar-condicionado e o conforto que os ônibus não tem”, diz.
Nos horários de pico da manhã (das 5h às 9h) e do almoço (das 11h às 14h), o transporte coletivo é mais usado do que o individual. Porém, as posições se invertem no horário de pico da noite (das 16h às 20h) e entre as 20h e a meia-noite. Entre as 16h e as 20h, por exemplo, veículos particulares são usados em 34,68% dos deslocamentos, contra 27,16% no caso do transporte público. O principal motivo para que as pessoas se movimentem é o trabalho, responsável por 43% das viagens. Em seguida, estão estudos (24%), lazer (6%) e saúde e compras, com 5% cada.
Diego Frizeira, de 21, mora no Bairro União, Região Nordeste, e trabalha como conciliador criminal no Padre Eustáquio, Região Noroeste. Costuma sair de cada às 7h30, sempre de carro, e perde cerca de 50 minutos no trajeto. Na volta, fora do horário de pico, gasta cerca de 20 minutos. “Raparei que aumentou o fluxo de carros. Há seis meses gastava uns 10 minutos a menos para chegar ao trabalho”, conta. “Tenho carro desde 2011 e prefiro andar nele, devido à facilidade de locomoção e à praticidade. Andar de ônibus consegue ser pior, ainda mais em dias de chuva”, acrescenta.
DIAGNÓSTICO A Pesquisa Origem Destino é realizada a cada 10 anos, em parceria entre a Segem e a Agência de Desenvolvimento da Região Metropolitana de BH. A última edição consumiu cerca de R$ 6 milhões e incluiu entrevistas em cerca de 40 mil residências selecionadas por sorteio. Também foram instalados postos móveis em alguns locais da Grande BH para a contagem de carros. A ideia é que o levantamento sirva para a definição de políticas públicas na área de mobilidade. E os números mostram que ainda há muito a ser feito, na avaliação do secretário de Estado de Gestão Metropolitana, Alexandre Silveira.
“Hoje o transporte individual praticamente se equipara ao transporte coletivo. Parte disso vem da melhoria da situação econômica das pessoas, que passaram a poder adquirir carros, mas muito vem da falta de transporte público de qualidade”, admite. Ele acredita que a implantação de um trem metropolitano ajudará a melhorar a situação, com 192,7 quilômetros de extensão e três linhas passando por 17 cidades. “A malha ferroviária está subutilizada. Estamos em fase final do projeto básico do sistema. Junto com o BRT, ele busca minimizar essa que é uma das grandes angústias: a mobilidade urbana da região metropolitana”, afirma. Silveira reclama da falta de investimentos federais no metrô. “O metrô de BH nos últimos 11 anos não recebeu um palmo sequer de investimento. Em lugar nenhum do mundo se faz transporte de massa sem pensar em metrô”, criticou.
Por Tiago de Holanda, do Jornal Estado de Minas.

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