Montadoras avaliam o efeito da Copa nas vendas

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De Valor Econômico

No estéril embate entre os grupos do “Vai ter Copa” e “Não vai ter Copa”, as montadoras preferiram não marcar posição, mas, para o setor, talvez fosse mesmo melhor que o Mundial não se realizasse no país – pelo menos, não num ano tão complicado como o de 2014. O evento ajudou a manter as vendas a frotas resistentes à crise. O preço disso, porém, será pago pelo varejo, com queda no fluxo de consumidores nas concessionárias. Entre analistas, as projeções chegam a indicar recuo superior a 25% nas vendas durante os meses de junho e julho, comparativamente a igual período de 2013.
Há quem veja certo exagero nessas contas. Por pior que seja o efeito da Copa, a possibilidade de recomposição do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) – ainda que parcial, como já sinalizou o governo – pode estimular algum movimento de antecipação de compras por consumidores que não querem correr o risco de encontrar preços mais altos a partir do mês que vem.
Mas é consenso que quando a bola começar a rolar quase ninguém vai pensar em comprar carro. E se a seleção brasileira avançar até a esperada final, a indústria pode perder outros cinco dias cheios de venda. A última partida, no Maracanã, não entra na conta porque será disputada num domingo.
A magnitude do impacto, dizem especialistas, vai depender ainda das condições de acesso a concessionárias, sujeitas a congestionamentos ou manifestações nas cidades-sede, onde estão os maiores mercados consumidores de automóveis do país.
“Não sabemos como será a situação do trânsito, a movimentação no entorno das concessionárias e se as pessoas vão emendar feriados [nas cidades que abrigam o evento]. Mas, certamente, teremos aí por volta de dez dias em que a média diária de vendas vai cair”, diz Rogelio Golfarb, vice-presidente de assuntos corporativos da Ford. “A maioria das pessoas não vai estar com cabeça para compra de carro”, acrescenta.
A perspectiva do executivo da Ford é compartilhada por praticamente todos os dirigentes do setor. Tanto a Anfavea, entidade que representa as montadoras, como a Fenabrave, das concessionárias de veículos, já manifestaram posições que seguem essa linha. “Vamos torcer para que tudo dê certo e que o Brasil ganhe a Copa. Mas haverá um impacto nas vendas, sim”, comentou na semana passada o presidente da associação dos fabricantes, Luiz Moan.
Consultorias especializadas em mercado automotivo falam em queda de dois dígitos nos emplacamentos. Nas contas da Roland Berger, o mercado deve fechar junho com o volume de vendas mais baixo do ano: 189 mil carros, 37,6% a menos do que o resultado de um ano antes. Colocando na conta as estimativas de julho, o recuo previsto pela Roland Berger no período do Mundial chega a 25,2%.
Ainda comparando com igual período de 2013, quando o mercado ainda girava mais de 300 mil carros por mês – um teto que a indústria perdeu de vista nos últimos quatro meses -, a Oikonomia prevê recuo superior a 19% no acumulado de junho e julho, enquanto a Jato Dynamics, num cálculo conservador, projeta algo próximo de 5%. Já as previsões da A.T. Kearney indicam, somente para junho, baixa de 15,5%.
Se as estimativas mais pessimistas dessas casas se confirmarem, a queda no consumo de carros no acumulado de 2014 – hoje ao redor de 5% – pode se aprofundar para um percentual superior a 9% ou 11% até o fim de julho.
É claro que parte do tombo tende a ser recuperada na sequência, com a liberação do consumo represado durante a Copa. O evento, dizem especialistas, pode prejudicar o aspecto mais emocional do consumo, como as compras por impulso, mas consumidores decididos a trocar de carro não mudam de ideia por eventuais transtornos causados por um evento esportivo. Podem apenas esperar mais algum tempo para fazê-lo.
De qualquer forma, a Copa, no mínimo, adia em mais dois meses a recuperação de um setor já abalado por fatores como a retirada de incentivos fiscais, restrições de crédito e menor propensão ao gasto por um consumidor mais endividado e menos confiante na economia.
Sendo assim, a eliminação precoce da seleção brasileira é o que de melhor pode acontecer para as montadoras? Não necessariamente, diz o consultor David Wong, da AT Kearney. “Toda a alegria de se realizar uma Copa do Mundo gera um movimento de consumo com efeitos positivos no emprego de outros setores e na geração de valor na economia”, diz o especialista. Segundo ele, um novo trauma para o futebol brasileiro, como foi a derrota para o Uruguai na final da Copa de 1950, só prejudicaria a confiança e o ânimo da população.
Fonte: ABLA

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