Financiamento de carros usados cai no Estado

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Setor mais prejudicado foi o de automóveis seminovos, que registrou queda de 8,5% no primeiro trimestre deste ano
Inflação fora da meta, aumento do índice de desemprego e maior restrição ao crédito foram os principais ingredientes da receita que alterou o desempenho da venda de veículos em todo o País. Enquanto a demanda por carros zero perdeu fôlego, com queda de 16,8% no primeiro trimestre de 2015 frente ao mesmo período no ano passado, a de usados jovens (de quatro a oito anos) teve alta de 2,8%, segundo dados da Cetip. No Rio Grande do Sul, no entanto, o setor apresentou resultados piores, com menos comercializações em todos os segmentos. De janeiro a março, o financiamento de automóveis novos caiu 20% em relação ao mesmo período de 2014. E, ao contrário do restante do País, este movimento não foi acompanhado de alta na demanda de usados. Os seminovos (até três anos), por sua vez, tiveram queda de 8,5% e os usados jovens perderam 0,2% do mercado.
A previsão da Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef) é de que o saldo de financiamentos de veículos e motocicletas em 2015 seja de R$ 192,7 bilhões ante os R$ 212,7 bilhões de 2014, representando queda de 9,4% no Brasil. Somente no primeiro trimestre, o volume de financiamento de veículos foi de 1,4 bilhão de unidades, montante inferior em 8,6% ante o intervalo de janeiro a março do ano passado. O levantamento é da Unidade de Financiamentos da Cetip, que reúne o cadastro das restrições financeiras de veículos dados como garantia em operações de crédito em todo o Brasil.
“A engrenagem está começando a andar devagar. Se não há um movimento de saída para os veículos novos, também não giram os estoques de seminovos e usados”, comenta o diretor de Vendas da Concessionária Unidos em Porto Alegre, Fernando Ruga. De acordo com ele, em abril o mercado de carros novos continuou em desaceleração e caiu 30% na relação com março.
A perspectiva de Ruga, entretanto, é de um cenário de estagnação para as vendas de veículos no Rio Grande do Sul e de que a mudança ocorra apenas a partir de setembro. “No final do ano, as comercializações se ampliam, porque as pessoas podem usar o 13º salário nas compras.” Para piorar, os modelos populares ? como o Gol (Volkswagen), o Celta (Chevrolet) e o Palio (Fiat) ? cuja demanda é maior neste momento estão mais raros nos balcões das concessionárias. Segundo o diretor de Vendas, a procura está 50% maior, e já começam a faltar produtos seminovos (a partir de 2010) que custam a partir de R$ 25 mil a R$ 30 mil.
“É natural que os consumidores retraiam os seus gastos, diante do custo de vida mais caro e o medo de perder o emprego. Automóvel é o investimento a médio prazo e taxa de juros aumenta muito neste período”, comenta o vice-presidente do Sincodiv/ Fenabrave-RS, Ambrósio Pesce Neto, ao estimar um aumento entre 15% e 20% na venda de carros usados nos próximos meses em todo o País. “Juntos, estes fatores levam as pessoas a optarem pelo carro usado, que tem preços mais atraentes (a partir de 30% abaixo da tabela dos novos).”
Pesce Neto, que é proprietário da Concessionária Iesa, garante que este comportamento já está se ocorrendo. “Isso é uma lógica do mercado: quando cai a procura por carros novos, cresce a de usados.” Segundo o dirigente do Sincodiv/Fenabrave-RS, em alguns casos houve crescimento dos serviços e do ticket médio nos setores de pós-venda das concessionárias. “Quando o mercado está menos favorável para a compra de veículos zero, o cliente fica mais atento aos cuidados e tende a revisar mais a mecânica do carro que possui, porque sabe que ficará mais tempo sem trocar de produto”, explica. Para o presidente do Sindicato da Indústria de Reparação de Veículos e Acessórios no Estado do Rio Grande do Sul (Sindirepa-RS), Ênio Guido Raupp, “não há dúvidas” de que os serviços vão aumentar também nas oficinas independentes. “Andava meio parado, por causa do grande volume de carros novos circulando. Mas agora, com a saída de seminovos e usados das lojas, que ficam às vezes muito tempo parados em revendas autônomas, este cenário deve mudar.”

Na contramão, procura por seminovos na Capital cresce 52%

Dados da Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto) sobre a evolução das vendas do mercado de automóveis seminovos e usados apontam que em Porto Alegre a queda foi de 6,1% em abril deste ano, frente ao mesmo mês de 2014. Em relação a março, o volume de vendas de veículos leves diminuiu 5,7%. Dentre as ofertas disponíveis ? que incluem também os usados jovens, usados maduros (nove a 12 anos) e velhos (13 anos em diante) ?, o segmento de seminovos teve o melhor desempenho no mês passado, em comparação com abril, com alta de 2,3%.
No acumulado do ano, o crescimento em vendas de seminovos na Capital foi significativo (51,4%), sendo que no mês passado foram comercializados 52,1% a mais veículos do segmento frente a abril de 2014. A evolução contraria a queda registrada nos finaciamentos (-8,5%) identificada pela Cetip. No entanto, a justificativa passa pelos benefícios de comprar seminovos à vista. “A tendência de um bom desempenho para o mercado de seminovos é constante, observa o presidente da Fenauto”, Ilídio dos Santos, ao lembrar que, neste caso, o financiamento pode ser mais vantajoso. “A melhora deste segmento é resultante do aumento do IPI e da desvalorização do novo logo que sai de uma concessionária, entre outros fatores”, lista Santos.
O dirigente justifica que o seminovo tem uma “excelente” relação custo-benefício para o consumidor. “Se pode adquirir um veículo em bom estado, por menor valor que um zero, e com acessórios, garantia de fábrica e da revenda, custos de seguros e IPVA menores.” Ainda de acordo com dados da Fenauto, há sete anos, a cada carro zero vendido, giravam cinco usados. Em 2014, esta relação passou de um para 3,5 respectivamente.

Resultado trimestral foi o pior em cinco anos no Rio Grande do Sul

A quantidade de financiamento de veículos no Rio Grande do Sul caiu de 82,7 mil unidades no primeiro trimestre de 2014 para 74 mil no mesmo período de 2015. Do total, foram vendidos 23,5 mil automóveis leves novos e 50,5 mil usados. Este foi o pior desempenho em cinco anos, segundo levantamento da Cetip.
“Iniciamos um período de ajustes estruturais na política macroeconômica, que, impactarão o setor automobilístico”, avalia Décio Carbonari, presidente da Anef.
Apesar dos efeitos negativos que começaram a ser observados principalmente a partir de janeiro, Carbonari avalia positivamente os ajustes em andamento. “Em um primeiro momento de alterações substanciais na política econômica, é esperado que a insegurança gerada impacte os hábitos de consumo e investimentos por parte das pessoas e organizações, como já se observou em outras ocasiões em diferentes mercados.” Uma vez estabilizado, surgirá um novo cenário, com tendência de retomada de crescimento, opina o dirigente. “Vamos ultrapassar esta crise como já fizemos em outros momentos de fragilidade ainda maior da economia brasileira”, avalia.
Fonte: Jornal do Comércio – Impresso

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