Elétrico por toda parte em 2020

Eles são silenciosos, mas prometem fazer muito barulho no setor automotivo nos próximos cinco anos. Os carros elétricos já são uma realidade no mundo, e alguns modelos importados de carros híbridos, com motores elétrico e a combustão, já são comercializados no Brasil. Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), reunindo bicicletas, utilitários e ônibus elétricos, o Brasil já possui cerca de 3.000 veículos que usam eletricidade para se mover. Esse número, porém, será de ao menos 60 mil daqui a quatro anos, na expectativa da ABVE. “A associação projeta 60 mil, e a Frost & Sullivan, 80 mil até 2020”, afirma o diretor do núcleo de pesquisas da ABVE, Ricardo Takahira.
Os carros elétricos são reconhecidos por não emitirem poluentes no ambiente, mas outra importante vantagem para seu proprietário é a economia no longo prazo. Segundo um estudo apontado pela ABVE e feito pela CPFL, o custo do combustível de motor a combustão por quilômetro rodado é, em média, R$ 0,19. No caso do motor elétrico, é de R$ 0,05. Quase quatro vezes menor. O preço dos carros elétricos, porém, ainda é mais alto do que o dos convencionais no Brasil. Segundo a ABVE, o custo da bateria e o fato de eles serem importados fazem com que os veículos ainda sejam mais caros.
Nos Estados Unidos, o terceiro carro da Tesla Motors, especializada em carros elétricos, para o mercado amplo, o sedã Model 3, custa US$ 35 mil (cerca de R$ 126 mil). O modelo lançado em abril já tem mais de 300 mil pedidos no mundo e deve começar a rodar em 2017. A Tesla também já afirmou que pretende vender o Model 3 no Brasil.
“A Renault ainda não fabrica elétricos por aqui, mas possui parcerias com a Itaipu Binacional, a CPFL e a Natura e fornece a essas empresas seus modelos elétricos para utilização em serviço”, explica Takahira.
A maior dificuldade para que os carros elétricos se popularizem é a falta de estrutura para recarregar a bateria. Hoje já existem carregadores residenciais, mas eles demoram de seis a oito horas para completar toda a bateria de um carro. Já em um eletroposto, demora cerca de duas. Hoje, no Brasil, só existem 50 postos de recarga e um projeto da CPFL de criar mais cem. Por falta de legislação, os eletropostos não podem cobrar pela energia e, por isso, o ‘combustível’ dos carros elétricos que circulam no Brasil é gratuito.
Vale lembrar que os carros híbridos, que têm os dois motores, não precisam de recarga, porque ela é feita automaticamente pelo motor a combustão.
Para Takahira, além de investimento em infraestrutura para recarga, faltam incentivos federais relativos a tributação para veículos com a tecnologia. “Alguns Estados e municípios já estão concedendo incentivos fiscais, mas ainda falta um grande pacote de incentivos federais para carros elétricos e híbridos”, conclui.
Transporte público deve ter soluções próprias no futuro
Os ônibus híbridos, que têm dois motores – um elétrico e outro a combustão –, já são uma realidade no Brasil há cerca de dez anos, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). Mesmo assim, a utilização da tecnologia para melhorar o transporte público ainda é incipiente, na avaliação do economista e mestre em mobilidade urbana André Veloso. “Enquanto a lógica do deslocamento individual continuar, os congestionamentos também existirão, mesmo com carros autônomos ou elétricos”, avalia.
Para ele, o problema não é a tecnologia. “Temos avanços tecnológicos, sim. O ônibus elétrico do Move, com piso baixo, é uma evolução”, afirma. Porém, existem interesses que “instrumentalizam” a tecnologia, na avaliação de Veloso. “A tecnologia é usada de acordo com interesses tanto das empresas como do poder público. Um exemplo é que em Belo Horizonte não conseguimos unificar as estações do Move com a linhas intermetropolitanas nem criar o bilhete único. Não é por falta de tecnologia, e sim de vontade política. Os avanços não são socializados”, afirma.
O interesse das grandes empresas também pode atrasar a chegada de alguns avanços tecnológicos aos usuários, na opinião do professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP Denis Wolf. “No quesito compartilhamento, por exemplo, são ideias interessantes para o mercado, mas que podem não agradar a indústria”, pondera.
Tecnologia pode gerar crise no setor
Estudo desenvolvido pela Bloomberg New Energy Finance aponta que o crescimento do uso do carro elétrico pode fazer, em 2028, o consumo de petróleo cair 2 milhões de barris por dia. Isso acontece porque a estimativa é que a venda de carros 100% elétricos sofra uma arrancada a partir de 2020. Em 2015, a venda de elétricos no mundo cresceu 60%, porém eles representam só 1% da frota. No Japão, porém, 11% da frota já é de carros elétricos.
O estudo também avaliou o potencial de fabricação das baterias. Até 2030, porém, menos de 1% das reservas de lítio, níquel, manganês e cobre serão utilizadas. Outra questão é o aumento do consumo de energia elétrica, que deve ser suprida por fontes de energia renovável.
Por Ludmila Pizarro, do O Tempo.

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