Com Macri, Brasil e Argentina tentam "fazer as pazes" na economia

Macri tenta derrubar barreiras impostas pelo governo Kirchner; Para Dilma, “relação com a Argentina é prioridade absoluta”
A chegada de Mauricio Macri à Presidência argentina proporciona um clima de “recomeço” nas relações econômicas entre o país e o Brasil, segundo fontes ouvidas pela BBC Brasil, que dizem que já estão em curso as conversas para reconstruir os elos bilaterais no plano comercial.
A expectativa é de que os resultados comecem a aparecer “mesmo de forma sutil” neste ano e de “maneira mais evidente” a partir do ano que vem.

Segundo Macri, nos últimos anos, Brasil e Argentina estavam como “um casal de namorados afastados” mas que agora podem começar a sentir “novos ares”
Foto: Divulgação – 22.11.2015

Em termos práticos, isso significaria primeiro reconhecer os problemas que estancaram, por exemplo, o comércio bilateral e geraram um ambiente de desconfiança do setor empresarial brasileiro em relação à Argentina nos últimos tempos.

Nesta segunda-feira, o governo Macri anunciou a eliminação de uma polêmica barreira à importação e de impostos às exportações de trigo criadas na gestão da ex-presidente Cristina Kirchner, que haviam provocado queda na produção e nas exportações – forçando o Brasil a procurar novos mercados para comprar o insumo.

A medida poderá incrementar no longo prazo o comércio bilateral, caso os produtores de trigo que tenham deixado o cultivo voltem a produzi-lo, aumentando produção e exportação para o Brasil, historicamente o principal destino deste grão argentino.
“Precisamos de mais diálogo e de maior transparência na relação comercial. E esperamos que as medidas anunciadas nesta segunda apontem nesta direção”, disse um negociador brasileiro, pedindo anonimato.
Do lado brasileiro, havia a reclamação de acesso às autoridades argentinas e aos dados disponíveis, definidos como uma “caixa-preta”.
O plano de recomeço da relação bilateral é ampliar a fluidez do diálogo para lidar com as barreiras comerciais argentinas que nos últimos anos de forma “indiscriminada” as exportações brasileiras; tentar saber quanto exatamente os importadores argentinos deixaram de pagar aos exportadores brasileiros devido às restrições que de acesso ao dólar, impostas no governo da ex-presidente Cristina Kirchner; e ainda negociar mais intensamente para “revitalizar” o Mercosul (bloco formado por Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezuela).
Não há atualmente dados precisos sobre qual o volume e valor dos produtos afetados pelas barreiras comerciais ou sobre quanto os importadores argentinos deixaram de pagar aos exportadores brasileiros.
O Banco Central argentino calculou a dívida total em US$ 8,1 bilhões em junho – cerca de 20% do total das importações argentinas -, mas sem especificar quanto desse déficit é com os brasileiros. O número é usado como base por Ruben García, da Câmara de Importadores da República Argentina (CIRA).
Ele disse que a Argentina “honrará seus compromissos” e que existe um “novo ambiente e nova esperança” internamente.
“Esperamos que a relação (bilateral) se restabeleça rapidamente. Que se incrementem rapidamente o diálogo e o comércio”, disse em entrevista por telefone.
Segundo ele, nos últimos anos, Brasil e Argentina estavam como “um casal de namorados afastados” mas que agora podem começar a sentir “novos ares”.
Paralelamente, de acordo com fontes do governo brasileiro e do setor empresarial, como por exemplo, o CEO do Grupo Vicunha, no Brasil, Ricardo Steinbuch, a expectativa é que o “novo clima” gere novos investimentos na Argentina.
“Estou muito otimista com o novo governo porque vamos ter mais previsibilidade, regras mais claras e queremos ampliar nosso investimento na fábrica que temos na Província de San Juan”, disse Steinbruch.
Segundo fontes do governo brasileiro, esse “novo ambiente” bilateral já teria começado.
“O diálogo bilateral já flui melhor do que antes (no governo da ex-presidente Cristina Kirchner). E hoje existe vontade política de resolver os problemas e avançar”, afirmou um diplomata que pediu para não ser identificado.

A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil. Mas, nos últimos anos, divergências estagnaram as relações econômicas entre os dois países. No ano passado, o intercâmbio comercial (a soma das importações e exportações) foi de cerca de US$ 28,4 bilhões, inferior aos US$ 36 bilhões registrados em 2013.


O plano de recomeço da relação bilateral é ampliar a fluidez do diálogo para lidar com as barreiras comerciais argentinas que nos últimos anos de forma “indiscriminada” as exportações brasileiras
Foto: Elza Fiuza/Agência Brasil

“Perda de ritmo”

Para economistas que acompanham a relação bilateral, como Dante Sica, da consultoria argentina Abeceb, a relação bilateral estava “estancada” no plano econômico e comercial, com meses seguidos de queda no comércio e falta de reuniões para discutir como avançar.

“O comércio bilateral cai principalmente porque as duas economias estão em queda e nossa relação é baseada (nas trocas de) bens de consumo (como automóveis, por exemplo). Mas sem diálogo ficava mais difícil resolver as questões bilaterais”, disse Sica.

Ao mesmo tempo, na gestão de Cristina Kirchner, investimentos brasileiros na Argentina “perderam o ritmo” diante de medidas como o controle cambial que impede a transferência de divisas para as sedes das empresas no exterior, ou medidas que afetaram as exportações – por exemplo, de frutas da Argentina para o Brasil.

“Foram tantos meses de falta de diálogo verdadeiro, de adiar definições e decisões, que os problemas foram se acumulando. São muitos os desafios que agora terão os dois governos pela frente para retomar a produtividade dessa relação”, disse o economista Raul Ochoa, professor da Universidade Tres de Febrero.
Na visão de Sica, da Abeceb, o governo de Macri “reconstruirá a política externa” argentina, dando lugar “especial” para o Brasil. Segundo ele, “com diálogo mais fluido será possível” resolver questões como as barreiras comerciais.
Afastamento
Outra mudança diz respeito à medida burocrática chamada DJAI (Declaração Jurada Antecipada de Importação), que fora implementada no governo de Cristina e dificultava o fluxo das importações argentinas, incluindo as vindas do Brasil.
A medida, que havia sido condenada pela Organização Mundial do Comércio, será eliminada até 31 de dezembro, conforme determinação da própria OMC.
A data foi confirmada nesta segunda-feira pelo governo Macri. “Sabemos que a Argentina continuará monitorando o comércio, mas, pelo que foi anunciado, nossa expectativa é de que haverá mais previsibilidade e transparência”, disse um interlocutor do governo brasileiro.
No passado recente, a polêmica DJAI foi motivo de uma série de disputas e reuniões entre autoridades e representantes do empresariado dos dois governos, até que a falta de discussões dominou a agenda bilateral.
“A relação entre Dilma e Cristina era boa, mas a relação bilateral ficou empacada porque elas decidiam as medidas a serem aplicadas para melhorar a relação, mas por falta de institucionalidade, de reuniões técnicas, de fluidez no diálogo bilateral tudo ficava parado”, disse um interlocutor brasileiro.

Do lado brasileiro, analistas dizem que a relação comercial bilateral é “iminentemente industrial” mas que, nesta nova etapa, o Brasil espera voltar a importar trigo da Argentina – o que foi limitado por medidas internas do governo de Cristina Kirchner –, mantendo a preferência desta importação com a tarifa zero estabelecida no Mercosul.

“No governo e no empresariado entendemos que Macri e sua equipe vão precisar de prazo para organizar muitas iniciativas do governo anterior. Mas a nossa disposição conjunta é a de avançar.”, disse uma fonte do governo brasileiro em Brasília.

Na visão de negociadores brasileiros, “essa mudança de postura” poderia “diminuir a retórica” de que o Mercosul não funciona. O bloco se reunirá na próxima segunda-feira em Assunção, no Paraguai. Até lá, espera-se que o plano econômico de Macri esteja mais claro, como disse o deputado federal e ex-ministro da Agricultura Felipe Solá.

“Ainda faltam muitos detalhes do que Macri pretende fazer no plano econômico para o país”, disse Solá no dia da posse.
“Fundamental”
Na quinta-feira, pouco depois da posse, o novo ministro da Fazenda e Finanças, Alfonso Prat-Gay, havia dito que o Brasil é “fundamental” para a Argentina no novo governo.
“Nossa prioridade é estar ligado ao Brasil e com o Brasil estar ligado ao mundo”, disse diante das câmeras de televisão em Buenos Aires.
No mesmo dia, Macri se reuniu durante 15 minutos com Dilma, e assessores do presidente argentino citaram a frase que ele havia dito dias antes, em viagem a Brasília: “Juntos (Brasil e Argentina) somos mais fortes”.
Na capital brasileira, diplomatas do Itamaraty e a nova ministra das Relações Exteriores da Argentina, Susana Malcorra, haviam definido os detalhes da comunicação conjunta sobre o que foi conversado no encontro entre Dilma e Macri, no Palácio do Planalto.
No texto, foi afirmado que os dois presidentes analisaram o relacionamento bilateral e a “inserção dos dois países nos fluxos internacionais de comércio e investimento”.
Fontes do governo brasileiro afirmaram que “foi tomada a decisão conjunta de fortalecer o Mercosul e de avançar no acordo com a União Europeia”.
Logo após assistir à posse de Macri na Casa Rosada, Dilma disse, em sua conta no Twitter, que “a relação com a Argentina é prioridade absoluta para o Brasil” e que “Brasil e Argentina seguirão se aproximando cada vez mais, em um espírito de amizade e cooperação”.
 
Fonte: Trianon Trade

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