Gol foi marco da engenharia brasileira

 

No mês em que o mito faz aniversário fomos ver como ele era no nascimento

 
O salão que você vê na foto é o DPR, sigla em inglês para Sala de Apresentação de Design. É neste espaço que os futuros lançamentos, ainda em fase de protótipo, são mostrados pela primeira vez
 
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Por João Anacleto // Fotos: Bruno Guerreiro
Abril de 1980. Philip Schmidt vivia cercado de desconfiança. O engenheiro alemão, chefe de Pesquisa, Desenvolvimento e Desenho da Volkswagen brasileira tinha certeza de que nascia nos galpões da marca, na Vila Carioca, em São Paulo, o VWque seria capaz de reeditar o sucesso do Fusca como o carro do povo. Mas como crer nisso se até então o besouro já tinha chegado à inalcançável marca de três milhões de unidades vendidas no Brasil?
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Depois de conhecerem o projeto B1 de perto, revistas e jornais eram uníssonos em noticiar o Gol como a chegada de uma nova era. O novo Fusca, como foi chamado, era um marco da engenharia brasileira. Tinha ignição eletrônica, monobloco no lugar do chassi e óleo de câmbio que nunca precisaria ser trocado. O motor 1.300 a ar do Fusca foi refeito para caber longitudinalmente na dianteira junto com o estepe, ganhou novos comandos, carburador e válvulas mais leves para emagrecer 14 kg. Agora eram 42 cv e um câmbio de quatro marchas macio como faca quente na manteiga.
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Por fora, nascia um ícone. “Quando olho para o carro de 1980, o vejo como o mais esportivo e sensual entre todos os Gol”, diz Luiz Alberto Veiga, chefe de Design daVW Brasil. Veiga conta que a origem do Gol não é o Golf, e sim o Scirocco, cupê desenhado por Giugiaro para substituir o Karmann-Ghia na Alemanha em 1974.
Por dentro, o G1 (ou Geração 1) tem um painel, com placas de metal aparentes e as laterais de portas são bem lisas, para ampliar a sensação de espaço interno. Mas a viagem no tempo com o carro de maior sucesso na história da indústria nacional (6,4 milhões de unidades vendidas até abril e mais de 1,3 milhão exportadas para 66 países) só pode ser completa com uma volta no Gol L, vermelho Calypso, de 1980. O modelo, impecavelmente conservado, faz parte do acervo da VW – que também mantém os outros seis Gol que você vê na foto. Além de uma miniatura do Gol 1987.
Gol 1987Este é o Gol quadrado de 1987. A VW só tem o modelo em miniatura no acervo, escala 1:4. Com essa dianteira foram criados o GTS, em 1987, e o GTI, em 1989
Giro a chave e o Golzinho pega de primeira, o carburador amamenta o 1.3 como uma mãe a um filho. Redondo, liso, sem a vibração incessante que lhe deu o apelido de batedeira. Embreagem, freios, aceleração, tudo parece ser de um carro 0 km. E é.
Os 80.161 km marcados no hodômetro enganam. “Compramos o carro porque ele foi o primeiro Gol a receber placa preta em 2010. Repintamos a carroceria e refizemos o motor com peças de um 1.300 a ar que a engenharia mantinha na fábrica de São Bernardo”, conta José Loureiro, gerente executivo de Desenvolvimento de Veículo Completo, e peça-chave na preservação da memória da VW brasileira: ele é, por assim dizer, o curador do acervo.
Gol 1980
GTI, BOLINHA, DOWNSIZING
O painel é mais completo do que imaginei encontrar em um carro de 1980. Tem conta-giros e até econômetro. Nem a folga na direção ou a falta do retrovisor direito tiram a graça de vê-lo trabalhando como no dia em que foi criado. Este Gol raspa no incrível. Poderia estar nas lojas até hoje.
Gol 1980Apesar do Gol ser genuinamente brasileiro, a VW remete a origem teutônica de seus carros. Desde o Gol de 1980, que trazia o lobo do brasão da cidade Wolfsburg no volante, até o “Das Auto” de hoje
Temendo não decolar em vendas, em 1981 a VW colocou sob o capô do Gol o motor 1.6 a ar, com dupla carburação e 51 cv, o real detentor do apelido batedeira. Em 1984, o AP-1800 desembarcava na família, com o Gol GT, e um ano depois ele abandonava o motor a ar, com o MD270, 1.6 refrigerado a água. Em 1987 ele ganha facelift, com faróis maiores e lanternas mais largas, além da inesquecível versão GTS, com o mesmo 1.8 de 99 cv do GT. No fim daquele ano a VWcomemorava o primeiro ano de liderança do carro.
Em 1989, outro marco da indústria: o GTi. Lançado com a exclusiva cor azul Mônaco, ele virou a cabeça de quem gostava de esportividade e se tornou sonho de consumo da legião de fãs do Gol. Foi o primeiro carro nacional com injeção eletrônica de série e o pioneiro a acelerar de 0 a 100 km/h em menos de 10 s. Os 125 cv de potência, os 13,2 mkgf a apenas 3.200 rpm e o excelente equilíbrio dinâmico formavam um trinca imbatível. Tivemos o prazer de pilotar um desses, outra joia do acervo, e comprovar suas virtudes – que vão da parte mecânica, aos bancos Recaro e ao painel de instrumentos.
Gol GTI
Primeiro carro de série com injeção eletrônica, o GTi tinha 125 e estilo inconfundível
Em 1994, nasce o Gol bolinha, com o tanque sob o banco traseiro e o estepe no porta-malas. Essa geração lançou um dos melhores esportivos de todos os tempos: o GTi 16V. O motor 2.0 16V alemão e o câmbio de Audi A4 tornaram a versão inviável em 2001, quando a terceira geração, com cara de Passat, fazia um ano de lançamento. Eram tempos de um “SuperGol”. Houve até downsizing, com o motor 1.0 16V turbo, de 112 cv. Um canhão de bolso.
Em 2005, com o G4 a VW devolve ao Gol a vocação pé-de-boi, para na sequência dar o seu maior salto de engenharia. A 5ª geração, trazia motor transversal e plataforma europeia. Seu desenho dianteiro era inspirado no Tiguan. Em 2012, ele ganha a identidade imposta pela VW mundial. Essa linguagem permanece até hoje.
Bancos Gol GTI
Os bancos Recaro de tecido são venerados até hoje
7×1: NO CONTRA ATAQUE
Os sete Gol aqui reunidos fazem parte do acervo criado pela iniciativa de alguns funcionários, liderados pelo gerente executivo José Loureiro, da Volkswagen em São Bernardo do Campo. Os carros encontram-se em perfeito estado de conservação e pela primeira vez foram mostrados, a pedido da Car and Driver – que também mobilizou o chefe de Design da empresa, Luiz Alberto Veiga, para nos atender. A VW também permitiu que dirigíssemos dois modelos, o pioneiro e o GTI.
Sete Gerações
Gerações
 
Fonte: UOL CARROS

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